Maria Clenilda, luto que pode virar luta

Maria Clenilda Presente!

É preciso lembrar antes de tudo que este nome próprio composto trata-se de um sujeito, Maria Clenilda, de um ser humano, que possuía planos, sonhos, vontades. Trata-se de uma amiga, mãe, filha, estudante, companheira. Este nome trata de um ser humano igual a todos, único como todos. E tratar dela como ser humano faz com que se lembre que somos todos humanos. Quem escreve este texto, quem o lê. Quem, como muitos, não o lê. Somos todos humanos, e por isso não podemos nos furtar à indignação de ter perdido uma vida por tão pouco: não ligaram o sinal!

Não é novidade, que na Avenida Amaral Peixoto, em Rio das Ostras, ocorram acidentes: atropelamentos, batidas de carro, de motocicletas, bicicletas, são imagens que fazem parte do cenário mais cotidiano desta cidade. O caos urbano se instala numa cidade que aumentou seu número de habitantes em mais de 100% na última década e traz consigo este cruel fator que se contrapõe ao direito de ir e vir: o risco de morte.

No dia 25 de Maio deste ano, a comunidade da Universidade Federal Fluminense, do Pólo Universitário de Rio das Ostras pôs o “bloco na rua”. Manifestaram-se por diversos direitos não garantidos, pela falta de sala de aula, por alojamento, por bandeijão, por segurança e ainda pela instalação de um sinal de trânsito em frente ao Pólo para que os estudantes, professores, técnicos e todos os cidadãos pudessem atravessar sem que para isso fosse necessário arriscar as suas vidas.

Desrespeito: obras do sinal um dia após fatalidade gerada pelo descaso.

Como tudo nesta cidade só funciona com pressão, no dia seguinte o sinal de trânsito estava sendo instalado. O que causou espanto é que desde então ele estava lá, mas desligado. E permaneceu assim até o dia 25 de agosto de 2011. Um dia após a morte da aluna Maria Clenilda, que tentou atravessar a rua para a universidade, o semáforo foi ligado.

Além da falta de um sinal nos ambientes de alto tráfego de pessoas a carência de guardas de trânsito pelas ruas de Rio das Ostras é coisa a se questionar. Onde estão todos os guardas concursados? Pra que fim o seu trabalho foi direcionado? Não é difícil a resposta: guardar o patrimônio material da prefeitura. Enquanto isso, o patrimônio humano fica refém do acaso, da pressa, das tensões cotidianas que são impostas pelo capitalismo.

Desta forma, a segurança de transitar, que deveria ser garantida pelo poder público passa a ser privada, garantida pelo próprio indivíduo. Por tudo isto, a indignação dos amigos de Maria Clenilda transformou-se em ato. No dia 25/08 os estudantes e professores foram para a Rodovia Amaral Peixoto expor a situação de descaso com a vida. Sob a palavra de ordem: “Prefeito, Prefeito, cadê o meu direito”, manifestaram o luto, a revolta, e dialogaram com os motoristas que passavam e indagavam.

Luto e Luta!

Após o ato, houve uma reunião que decidiu por realizar ainda um próximo ato na quarta-feira, 31/08, 16h: Ato de Sétimo Dia, com uma caminhada até a prefeitura e apresentação das reivindicações da comunidade acadêmica.

O óbito de Maria não pode ser mais um que desapareça sob o silêncio dos “jornais” que evidenciam uma cidade perfeita. Os estudantes, professores e a comunidade da UFF têm um dever, não apenas com sua amiga e família, mas com toda a sociedade. Todos ao Ato de Sétimo dia! Todos de Luto! Blusas e Fitas pretas! 

“Maria, Maria
É um dom, uma certa magia
Uma força que nos alerta
Uma mulher que merece
Viver e amar
Como outra qualquer
Do planeta”

Jonathan Oliveira é professor, estudante da UFF e um ser humano que poderia estar no lugar de Maria Clenilda.

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3 Respostas para “Maria Clenilda, luto que pode virar luta

  1. caros amigos, o jornal o polifônico está replicando o artigo.

    ab,

    lb

  2. Foi preciso perder uma vida para então o semáforo da rodovia em frente a UFF/PURO ser ligado! Um dia depois da mobilização do dia 25 de maio, não por acaso, o semáforo foi colocado na rodovia, porém sem funcionamento. Um dia depois da morte de uma aluna, que se dirigia para faculdade e foi atropelada ao atravessar a rodovia, o semáforo foi ligado! LUTO E LUTA pela aluna Maria Clenilda. É preciso mobilização constante, exigindo nossos direitos para que outras vidas não se percam pelo DESCASO!

  3. O que mais me deixa indignada é termos que lutar por direitos nossos, quando na realidade isso deveria vir sem esforço!!! Luto e Luta!!!

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