Por Leonardo “Mosquito” Esteves
Desde o dia 09 de Novembro está acontecendo um vazamento de petróleo no campo de Frade, operado pela multinacional Chevron. Há muita dissimulação e desinformação em favor da “Big Oil” Chevron … a ANP parece até agora, pelas declarações lidas na mídia, colaborar com isso e a mídia não está dando a devida importância ao fato.
Como trabalhador da área de perfuração, completação e workover´s de poços na Petrobrás, eu contesto diversas informações a fim de ajudar a compreensão e a definir este episódio como um ACIDENTE INDUSTRIAL / AMBIENTAL causado pela Chevron no Litoral Fluminense:
1) Tomam todo o cuidado para isentar a atividade de produção a fim de evitar sua parada. Há poucos anos, no campo de Marlim operado pela Petrobrás, esta declarou ter havido uma “exudação” no leito marinho. Naquele episódio foi decidido pela interrupção da produção de Marlim. Isso criaria um prejuízo econômico para Chevron. Eu acredito ser mesmo a atividade de perfuração causar este acidente, ao invés da produção. Mas constatamos aí uma abordagem diferente.
2) A terminologia “exudação” esta sendo usada de modo intencional e é equivocada, pois esta terminologia significa escape ou fuga natural de petróleo, logo uma exudação não é algo provocado por uma perfuração. Seria muita coincidência ela ocorrer simultaneamente. Aliás num episódio natural ninguém tem culpa, daí minha suspeita numa investida no sentido de desinformar. Em Marlim também seria estranho esta coincidência ocorrer num campo já em produção, teríamos que ter acesso aos dados daquela investigação para determinar o que de fato ocorreu (e se houve de fato uma investigação). Enfim, acho que vocês podem perceber que não é à toa o uso desta terminologia antes do público ter acesso a tais informações.
3) As informações na mídia são contraditórias, pois afirmam que a fuga/escape de óleo é fruto de uma fissura proveniente do aumento de pressão do poço. Ora, o que originou esse aumento de pressão no poço e quais medidas foram executadas para seu efetivo controle? Essa questão é a peça chave para o entendimento do que está de fato ocorrendo no nosso litoral:
- Quando se perfura um poço, utiliza-se fluído com uma tal densidade que seja suficiente para impedir que os fluidos naturais da formação escapem para dentro do poço, ou seja, gerem influxo da formação para o poço. Além disso existem equipamentos de segurança para controle de poço além do fluído que é a barreira primária de segurança, pois eventualmente durante a perfuração pode haver uma situação onde a densidade do fluído, que gera um certa pressão hidrostática, seja insuficiente para conter o petróleo dentro da formação causando o escape ou influxo indesejável. Isso pode ocorrer ainda com manobras erradas, limitações de projeto, zonas de pressões anormais não esperadas, etc. Mas quando ocorre esse influxo para dentro do poço (ing.: “kick”) deve ser implementadas técnicas e ações de controle de poço a fim de realizar sua remoção e o restabelecimento das condições de segurança do poço. Se houver erro de projeto, como dito, erro na execução destas manobras, falha de equipamentos ou a não percepção/detecção deste problema em tempo hábil durante o trabalho no poço, o influxo irá migrar dentro do poço, elevando sua pressão, podendo gerar uma erupção descontrolada dos fluidos da formação rochosa (ing.: “Blow-Out”) que significa a perda de controle do poço, tal como vimos ocorrer no Golfo do México e, recentemente, em Enchova no Brasil.
4) Então, nos episódios de influxos, caso não sejam for tomadas medidas adequadas de segurança, um descontrole e sua evolução para um acidente fatalmente irá ocorrer. Existem equipamentos de controle instalados na “cabeça do poço” (na parte superior ou início do poço) que permitem o seu controle em caso de influxos indesejáveis da formação, a fim de mitigá-los. Um equipamento fundamental é o preventor de erupção, uma espécie de arranjo com linhas de circulação e válvulas de alta pressão destinados a este controle. Porém somente fechar a válvula do preventor de erupção (ing.: BOP – “Blow-Out preventer”) por si só não irá restabelecer o controle do poço, pois o influxo subirá no poço (migração) como uma bolha de óleo ou gás, elevando a pressão total do poço possibilitando ocorrer desde uma ruptura ou quebra de equipamentos, válvulas, linhas e tubos, ou mesmo gerando um FRATURA na formação no seu ponto mais frágil, ou seja, uma ‘fissura’. Caso o conjunto ‘BOP’ tenha capacidade de conter elevadas pressões no poço, isso não significa necessariamente que haja controle total do problema, pois ao fraturar a formação poderá ocorrer o que chamamos de erupção de poço na subsuperfície, ou seja, dentro do poço (ing.: “Under-Ground Blow-Out”), uma situação crítica embora o fluxo não escape pela boca do poço neste caso, as pressões elevadas criam fissuras que podem se propagar até o fundo do mar, como suspeito a partir da análise de informação lida na mídia, gerando vazamento de petróleo muito difícil de se resolver… ou seja: não acreditem numa “exudação”, tem toda a cara de acidente mesmo, acidente ambiental, industrial que arrisca a segurança e a vida das pessoas, das instalações e outras atividades econômicas do litoral fluminense!
Nós profissionais que trabalham no ramo, temos de realizar cursos e treinamentos de 2 em 2 anos, segundo normas internacionais em instituições certificadas pelo IADC (International Association of Drilling Contractors) a fim de estarmos habilitados e preparados a controlar um poço, em caso de influxo indesejável o qual pode evoluir para uma erupção.
Enfim, este dano ambiental sinaliza risco elevado inclusive para os trabalhadores e trabalhadoras na unidade marítima e demonstra que a atividade de perfuração não é inócua como querem induzir a população, e que o desenvolvimento teria um custo colateral aceitável. Uma mentira, vide o mega acidente do golfo do México, e a crescente crise ambiental e econômica ou de civilização que a humanidade está mergulhada.

18 navios de 11 grande empresas petrolíferas trabalham nas operações de contenção do óleo. Será tão pequeno o acidente como dizem?
Declararam haver um vazamento de 700 barris (cerca de 111.000 litros de petróleo, ou mais de 5.500 galões de 20 litros d´água daqueles que encontramos por aí nas casas), que em tese não seria um “grande” vazamento, comparado a outros acidentes. Mas o problema pode se agravar e ainda continua o vazando! Ou seja, continua saindo óleo… e a mancha de óleo poderá crescer dia a pós dia. E isso me parece um “acaso”.
Daí faço alguns questionamentos:
- Cadê o dinheiro dos Royalties aplicados em programas de contingência para casos como este acidente?
- Por que só notinhas de rodapé na grande mídia? Será que esperam que ela atinja a costa para noticiar?
- Principalmente: Quais as medidas estão sendo tomadas para punir a empresa e tirar esse óleo do mar?
Leonardo Esteves é técnico químico de petróleo da Petrobrás e militante do núcleo PSOL Serramar.




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Muito bem Leonardo, também temo pelas fissuras: desde 1989 me intriga tantas intervenções no subsolo da bacia de campos que cheguei a comentar com o prof. Dieter Muher do Insti. de Geol, da UFRJ e alegou prouca probabilidade mas que deveria haver monitoração. Anos depois, não muitos tivemos a informação do rebaixamento da plataforma continental em Macaé e agora, depois do México (BP) é a nossa vez. Pior que a atividade de perfuração e exploração tem licenciamento diferenciado, não produz EIA e poucas vezes, não me lembro de alguma, não se faz audiencia pública.
Paulo Marinhol.