Salvem Ayub e Mosleh

*Por Gerardo Xavier


Na cidade de Piranshar, no Curdistão, noroeste do Irã, dois jovens rapazes, Ayub e Mosleh, sobrenomes desconhecidos, um de vinte e o outro de vinte e um anos de idade, podem ser apedrejados na sexta-feira, dia 21 de janeiro de 2011. Os “crimes” de que são acusados aparentemente são dois: o primeiro foi ter mantido uma relação homossexual e ainda por cima filmado a si próprios durante o ato; o segundo manter em seus telefones celulares imagens do presidente Ahmadinejad também mantendo relações com outro homem e da face do líder religioso daquele país, aiatolá Ali Khamenei, “colada” no corpo de um jumento.

De acordo com o que se consegue ler nas mais diversas fontes na Internet, começando pelo Comitê Internacional contra o Apedrejamento, a rápida execução deles seria uma compensação aos setores mais radicais do regime teocrático iraniano pela comutação da pena atribuída a Sakineh Ashtiani, ainda não confirmada oficialmente, mas praticamente certa. Uma demonstração de que a famigerada “Sharia”, ou lei islâmica, ainda vigora lá. Em outras palavras, já que a mulher adúltera não será mais sacrificada no altar do obscurantismo fundamentalista medieval que domina aquele país, que seja dado aos bárbaros sanguinolentos o suplício e a morte de dois jovens homossexuais. Rapidinho. Repugnante.

Quando eu tinha a idade de Ayub e Mosleh, já era homossexual assumido. Além disso, embora não existissem ainda computadores e telefones celulares, eu lembro que desde o colégio fazia colagens dos rostos dos generais Geisel e Figueiredo em fotos de revistas pornográficas e também de animais. Minha sorte talvez tenha sido que eles não eram muçulmanos, não sei.

Posso sentir exatamente o que sentiram esses jovens ao cometer esses “crimes” capitais, porque era o mesmo que eu sentia mais de trinta anos atrás: a imensa alegria de manifestar a sua revolta contra um regime autoritário, anacrônico e repressivo que não concede espaço para que um jovem desenvolva livremente a sua personalidade e busque a felicidade da forma que achar melhor.

O que eles fizeram não merece punição nenhuma, a não ser para quem admita punir a manifestação de um pensamento e o livre exercício da sexualidade entre adultos capazes, ainda mais com a morte, o que é um ponto de vista que sequer merece ser debatido seriamente. Só para esclarecer o que quero dizer com isso, como discutir racionalmente uma “lei” que equipara um ato sexual consensual entre duas pessoas do mesmo sexo com um estupro, estabelecendo a mesma pena para ambos os casos?

É bom chamar a atenção para uma sombria estatística iraniana. Naquele país ocorre uma execução a cada oito horas, três a cada dia. Em números absolutos, o Irã só perde para a China. Proporcionalmente, Ahmadinejad e os aiatolás ganham da ditadura chinesa de goleada, dezenas de vezes a um. Não é pouca coisa, considerando os números chineses e o conhecido rigor do sistema penal da República Popular da China.

Sobre as piadas desrespeitosas com as figuras de Ahmadinejad e Khamenei, recordo da única referência que já li sobre uma conduta como essa acarretar a aplicação da pena capital nos últimos cem anos. Foi no livro do historiador Richard Grunberger, A Social History of the Third Reich. Hitler não era muçulmano, mas também não tinha bom humor.

Gerardo Xavier Santiago, advogado e militante libertário.

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