Inoperância do Estado acarreta a endemia de dengue

Por Dr. Eraldo Bulhões

Mais uma vez, a dengue avança em todo o país e os números de casos e mortos se multiplicam a cada dia. Somente até o dia 26 de fevereiro, segundo levantamento do Ministério da Saúde, foram registrados 155.613 casos e 51 mortes em todo o Brasil. O número de mortes sob investigação chega a 112. A região Norte, a mais afetada, registrou 31,6% dos casos. As sérias falhas administrativas na orientação dos profissionais de saúde no combate à dengue , da midia e da população.

Um grande problema no combate à dengue no Brasil é a questão dos meios de comunicação, que já divulgaram inclusive matérias criminalizando a população pelos surtos de dengue. Nós, aqui, temos uma visão bem diferente da visão das autoridades sobre a dengue. E a grande realidade é que todos os grandes veículos de comunicação vão a reboque da opinião do governo. Todos seguem a linha do Diário Oficial, do Ministério da Saúde e das Secretarias Municipal e Estadual de Saúde. Nossas opiniões são diferentes em todos os aspectos: no que tange ao combate ao mosquito, ao tratamento da doença e a essa questão da comunicação.

No tratamento inicial da dengue, existem várias coisas a se elencar, que não são divulgadas pelas autoridades e, consequentemente, pelos meios de comunicação. A dengue é uma doença infecciosa. Causa febre, é um vírus. Mas ela é distinta das outras infecções. O vírus é um antígeno. Quando você faz uma vacina, o antígeno gera o anticorpo e o vírus é inativado. Mas ele funciona como se fosse uma resposta do organismo à chegada daquele vírus novamente na pessoa. O sarampo, e todas as outras doenças para as quais se fez vacina, utilizam esse tipo de procedimento. Mas com relação à dengue, todos os anos, quando tem epidemia, as autoridades e os meios de comunicação dizem que vão fabricar a vacina para a dengue. Todavia a dengue tem duas etapas, é uma doença infecciosa diferente.

Uma parte da doença é infecciosa, mas em um determinado momento ela passa a ser uma patologia distinta, que dita a hipersensibilidade tóxico-alérgica. Quando você tem um choque anafilático, ele dura dez minutos. No caso da dengue, esse período de choque da hipersensibilidade tóxico-alérgica dura 72 horas.

Além das informações não divulgadas, muitas delas são falsas, como a diferenciação entre os quatro tipos de dengue existentes no Brasil. Diferente do que dizem as autoridades, o tipo 4 da doença não é mais agressivo que os outros sorotipos.

São quatro tipos de vírus no caso da dengue. Muita gente diz que um tipo é mais grave do que o outro. Mas em princípio, usando um raciocínio lógico, não é. Qualquer organismo fraco, infectado pela primeira vez, derrota o vírus da dengue, de qualquer tipo. A pessoa vai ter sintomas de resfriado e a dengue vai passar despercebida. Mas se ele for infectado pela segunda vez, os sintomas vão aparecer de maneira bastante acentuada. Algumas pessoas chamam isso, erradamente, de dengue hemorrágica. Como pode ser dengue hemorrágica se todos os tipos de dengue têm os mesmos sintomas? A mídia e os governos acham que o povo é burro e isso não é explicado. A complexidade da dengue está aí: quando você tem dengue do tipo 1, digamos, você fica curado e seu organismo gera um anticorpo. Em uma segunda infestação, agora, por exemplo, com a chegada do tipo 4, mesmo a pessoa que já teve dengue duas vezes, está vulnerável.

São 180 milhões de pessoas vulneráveis no Brasil. A gravidade da dengue, portanto, está na segunda infestação.

Na primeira infecção, o seu organismo gera um anticorpo, a sua febre passa e você está curado. Mas da segunda vez, depois que a sua febre passa e sinaliza o surgimento do anticorpo de novo tipo, o encontro entre os dois anticorpos, da primeira e da nova infecção, cria essa reação de hipersensibilidade tóxico-alérgica, que cria uma situação danosa ao organismo. O fim da febre acaba significando, na verdade, o início do problema. Mas criou-se uma cultura de que o fim da febre é o fim da doença. “Doutor, passou a febre. Posso levar meu filho?” pergunta o pai. E o médico libera porque precisa daquela vaga desocupada por falta de leitos e de instrução sobre o tratamento da dengue. O período pós-febre é como um choque anafilático de 72 horas.

A variedade de tipos de vírus engana o sistema imunológico de quem já foi infectado uma vez por um tipo diferente do vírus. Nós, seres humanos, temos uma quantidade de sangue na nossa bomba cardiovascular, que se chama volemia. Na hora dessa hipersensibilidade tóxico-alérgica, a parede dos vasos forma uma espécie de malha e o plasma se desloca para os pulmões. Em uma escala de 0 a 100, nós temos 60% de plasma no sangue e 40% de hemácias. A hemácia tem ferro e leva o oxigênio para o cérebro. Se você tem 5 litros de sangue e o seu batimento cardíaco é 72, com a perda de 2 litros de sangue após o deslocamento do plasma, que é uma substância de altíssima qualidade, o seu batimento cardíaco vai a 150.

Essa questão é fundamental, pois se o paciente é liberado depois da febre, ele vai ter desmaios, vai cair novamente. Por isso que a hidratação é fundamental. Esse paciente vai voltar para o hospital em choque, com o batimento cardíaco alto e com dois litros de sangue a menos. O paciente chega com a pele fria, o pulso fino e o médico quase não consegue verificar o batimento cardíaco. Por que o homem que tem sua perna decepadas por um trem entra em choque? Por conta da perda volumosa de sangue. Automaticamente, os batimentos cardíacos aumentam.

A hidratação é fundamental para a regularização da dinâmica da circulação sanguínea. Nos hospitais públicos, você vê pessoas com dengue, horas esperando atendimento, sem tomar nem um refresco. Contudo, a hidratação, diferente do que dizem, não é feita só com água. O potássio e o sal ajudam a regularizar a circulação, ajudam na hidratação. O que é feito? Nos é dado o soro caseiro. Mas as pessoas hipertensas não podem tomar o soro caseiro em grande quantidade. O que acontece? O paciente não morre de dengue, mas morre de AVC .

UPAS: precarização no combate à dengue.

Do ponto de vista administrativo, a criação da UPA [Unidade de Pronto-Atendimento] no Rio de Janeiro, colocou os postos de saúde para terceiro plano. Os postos já tinham referência no combate à dengue. As falhas administrativas estão fazendo o conhecimento sobre a doença ficar cada vez mais reduzido. Por exemplo, os especialistas do governo tinham que estudar um pouco mais o caráter antropológico e antropomórfico da dengue. Como ela chegou ao Brasil na época da escravidão? Onde ela se manteve, geograficamente? Isso traria respostas, por exemplo, para mitos, como o de que o Aedes aegypti põe seus ovos na água parada. Mentira. Ele põe seus ovos dois milímetros acima do espelho d’água, onde a água circula menos, mas é mais limpa. Nas lajes, em habitações inacabadas, que no Rio são milhares, o Aedes não põe seus ovos na água acumulada sobre o limo, mas nos cantos da laje, onde a água limpa da chuva circula, e próximo ao phitoplancton (limo). E a principal qualidade desse espaço é que ninguém percebe que ali existe um foco de transmissão, um local que na verdade é um foco em potencial. Ou seja, o Aedes é inteligente. E esses focos são tão perigosos, que pra se ter ideia, o mosquito vive 30 dias e põe 1.500 ovos nesse período, geralmente no mesmo lugar onde nasceu .

Bromélias livres: cientistas garantem que não são foco de dengue.

Outros mitos: os locais de água completamente parada não são os únicos onde o Aedes põe seus ovos. Nos locais com água como aqueles tonéis de água dos lava-jatos, onde o Aedes põe seus ovos também, mas eles se alojam no fundo do tonel. Quando a água para, eles sobem ao espelho d’água. As bromélias não são locais apropriados para o Aedes pôr seus ovos, diferente do que é dito, pois os hormônios da planta matam os ovos. Os ferros velhos têm carcaças de carros que são focos potenciais não por conta da água somente, mas por conta do suor, isto é odor do ser humano impregnado nos bancos. O Aedes fareja o nosso suor.

Outro mito é a vulnerabilidade de quem é mais saudável ou menos saudável. Independente do tamanho, ou do peso da pessoa, o que vale na distinção de quem é mais ou menos vulnerável à dengue é a competência imunológica. Como o sistema de defesa da pessoa reage. E ainda digo mais: sempre os mais saudáveis são mais vulneráveis. Se você ver fotos das crianças que morreram de dengue, só vai ver crianças saudáveis. As pessoas não conhecem o Aedes. As autoridades falam que não tem dengue no inverno no Rio, mas o aumento das temperaturas tem revelado casos de dengue em agosto, por exemplo, o mês mais frio do ano estatisticamente .

Fumacê: polui e mata mais os outros seres vivos que o mosquito.

Existem, também, outros mitos em relação ao uso dessas substâncias químicas no combate a dengue. O fumacê, por exemplo, tinha todas as suas substâncias importadas do USA. Há 15 anos, o fumacê foi contra-indicado pela Fundação Oswaldo Cruz. Com o fumacê, o controle biológico do vetor ficou prejudicado. Ou seja, além de atacar o Aedes aegypti, o fumacê matava também lagartixas, sapos, rãs, pássaros, causando um desequilíbrio ecológico. Foi justamente o fumacê que fez a dengue ficar endêmica. O fumacê só atinge o inseto adulto. Ele não atinge o ovo que, encapsulado, não permite a entrada da substância. Além disso, o fumacê mata animais que são predadores dos mosquitos. Sem contar com o seu efeito tóxico para os seres humanos. E quando a situação fica mais delicada, ainda tem alguns ousados que insistem em usá-lo.

Já faz 25 anos que os surtos de dengue tornaram-se comuns no Brasil. Em 2011, mais uma vez, o mosquito Aedes aegypti vem espalhando a doença pelos quatro cantos do país, principalmente pelas regiões Norte e Sudeste. A inoperância dos gerenciamentos é a maior causa desse novo surto de dengue, assim como dos anteriores. Por isso, o problema do combate à doença começa pela comunicação e orientação dos profissionais de saúde.

É fundamental criar cursos específicos sobre dengue nos Postos de Saúde, que estão com os seus Centro de Estudos desprestigiados, como uma escola de combate à dengue. Seria uma experiência para fazer com que as associações de moradores, os trabalhadores do local, todos aprendessem sobre a dengue o que nem a grande mídia domina e durante estes anos de endemia não conseguiu aprender. Pois, até hoje, os representantes da grande mídia não fizeram sequer um seminário para discutir o assunto .

Há alguns anos, a experiência cubana com a dengue nos ensinou muito. Eles tiveram um surto de dengue em 1981 e conseguiram eliminar a doença. Hoje é até complicado um médico cubano aprender sobre a dengue, pois não existem mais casos no país. Dessa experiência, foi usado no Brasil um larvicida cubano muito eficiente, que apresentou bons resultados no combate a dengue. Mas uma grande diferença, além das substâncias, entre o combate a dengue em Cuba e no Brasil, foi que, lá, eles diziam ao povo: nós temos que combater os focos da dengue, governo e população.

Aqui, o governo fala para o povo: vocês têm que combater os focos para a dengue acabar. Só o povo. Aqui o Estado joga a responsabilidade para a população. Pois até hoje, os representantes da grande mídia não fizeram nem ao menos um seminário para discutir o assunto .

Eraldo Bulhões Martins é médico

Fonte: Fundação Lauro Campos

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