A imobilidade urbana regional e a velha política: o transporte público.

Por Pedro Marinho

O precário sistema de transportes na região dos lagos.

É sintomática a situação dos transportes em nossa região. Quem tem de ir e vir – há de lembrar, direito garantido pela constituição – sofre com uma crescente imobilidade urbana. Nada de novo para as grandes cidades, entretanto, essa realidade não está mais restrita a esses grandes centros urbanos. Ao contrário, está cada vez mais presente do interior do Estado conforme as pequenas e médias cidades atraem cada vez mais pessoas, impulsionadas pela ineficiência dos grandes centros.

Já se tornaram corriqueiras as notícias dos problemas relacionados com o tema, sendo comuns manchetes de jornais e telejornais como: “Caos no transporte público em Macaé – ônibus superlotados e longa espera são algumas das dificuldades enfrentadas” [1]; “População reclama da linha Rio das Ostras – Macaé” [2]; “Transporte público em Petrópolis continua gerando reclamações – atrasos e quebras de ônibus, problemas antigos ainda não solucionados”[3] ou “Campos – passageiros reclamam do serviço de transporte público e se arriscam nas vans. Veículos com o pneu careca e lataria solta, parabrisas trincados…”[4]

Apesar de cada município ter suas particularidades, há também muito de comum nessa situação. Alguns problemas ou situações parecem se repetir como: a situação precária e insuficiente da frota, o alto valor das tarifas, a insatisfação dos funcionários das empresas de transporte, os congestionamentos e o desrespeito com a população.

Devemos observar, frente à situação, o caráter do problema. Como o transporte público é de uso coletivo, e indispensável à manutenção do direito constitucional de ir e vir, funciona na forma de concessão pública. Ou seja, o Poder Executivo (Prefeituras e Governo do Estado) concedem o direito às empresas explorarem esse serviço. Para além, cabe ao Poder Legislativo (Deputados e Vereadores) fiscalizar o bom préstimo do mesmo. Entretanto, o interesse dos políticos parece não ser o mesmo da população quanto a esse serviço de utilidade pública. É preciso observar que os ônibus lotados, mal conservados e motoristas com salários insatisfatórios não é uma situação ruim para todos: os donos das empresas de ônibus ganham muito dinheiro com essa situação, pois tem seus gastos reduzidos com baixos salários dos funcionários e má conservação da frota, enquanto seus lucros são ampliados com a super lotação dos ônibus. Mas para que isso tudo funcione é preciso ter a conivência do grupo político que está no poder.

Essa situação é um sintoma do adoecimento do sistema político de nossa região, marcada pela conivência entre maus políticos e empresas inescrupulosas. Tal situação funciona para a manutenção desses atores públicos no poder à medida que essas empresas financiam campanhas políticas e articulam trocas de favores. Nesse cenário é nocivo o estreitamento entre empresas e políticos. A ética política significa o não conflito de interesse entre as partes. Não devemos compactuar com tal situação, por um lado evidenciando tais problemas a fim de pressionar o Poder Público a salvaguardar o interesse coletivo (democracia), por outro não votar em candidatos e partidos que aceitem financiamentos privados, pois estes ferem a ética colocando seus interesses a frente do bom funcionamento da democracia, do Estado e bem comum.

Pedro Marinho é professor de Geografia e militante do Núcleo PSOL Serramar.


[1] Publicado em 22/12/2009 e disponível no sítio da internet: http://in360.globo.com/rj/noticias.php?id=6913
[2] Publicado em 15/01/2010 e disponível no sítio da internet: http://in360.globo.com/rj/noticias.php?id=7428
[3] Publicado em 20/01/2010 e disponível no sítio da internet: http://in360.globo.com/rj/noticias.php?id=7526
[4] Publicado em 12/11/2009 e disponível no sítio da internet: http://in360.globo.com/rj/noticias.php?id=6210

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