Milhares de jovens acampam em Madri

Por Fabíola Munhoz

Na hora marcada, uma massa de manifestantes começou a descer o Passeio do Prado aos gritos de “Que no, que no, que no nos representa!”, “A, anti, anticapitalista!” e “El pueblo unido jamás será vencido”, entre outros hinos. Cada vez mais pessoas iam se somando ao grupo, enquanto ele se aproximava do cruzamento do Passeio do Prado com a Rua Atocha. Ali, um microfone aberto à livre expressão possibilitava a quem quisesse, compatilhar suas reclamações com outras milhares de pessoas. A reportagem é de Fabíola Munhoz, direto de Madri.

A Puerta del Sol, em Madri, despertou agitada na manhã de domingo (24). Passei pela nova acampada feita pelo 15-M no local, por volta das 11 horas, e me deparei com tendas para informação sobre o movimento e também atividades das comissões de Ação, Cozinha, Comunicação, Meio Ambiente, Infraestrutura e Atendimento Médico.

Uma grande exposição de fotografias contava a história do processo de mobilização popular iniciado naquela mesma praça, no dia 15 de maio deste ano, atraindo o olhar de quem passava. Os transeuntes também se detinham para ler as mensagens de indignação presentes nos inúmeros cartazes espalhados pelo local. Ao lado, duas apresentações musicais aconteciam simultaneamente, acompanhadas por um público pequeno, porém animado.

Uma dessas atrações consistia num grupo de rappers que cantava frases rimadas, com conteúdo crítico à atual política socioeconômica levada a cabo pelos governos de toda a Europa frente à atual crise financeira. Os artistas eram acompanhados por uma base eletrônica que marcava o ritmo de suas canções, movida pelas pedaladas em uma bicicleta, cuja energia mecânica era transformada em impulso para funcionamento do equipamento de som, graças a uma engenhoca ecológica criada por algum defensor do meio ambiente. Na tenda de informação, um mural divulgava a programação prevista para aquela tarde e também para os dois seguintes dias, dando especial ênfase à manifestação que aconteceria a partir das 18h30 de ontem, na glorieta de Atocha. Dali, parti para o alojamento de “indignados” que está formado desde a noite de sábado no Passeio do Prado, abrigando militantes de diversas partes da Espanha e até mesmo de outros países. O local, que é um extenso jardim posicionado como divisória de duas largas avenidas, apresentava-se coberto de barracas de camping e cartazes, trazendo à memória a estrutura organizativa do Fórum Social Mundial. Nessa área ocupada pelo 15-M também funcionam as comissões essenciais, como Cozinha e Atendimento Médico, além de um Ponto de Informação sobre o movimento e sua programação de atividades.

Durante uma caminhada por todo o Passeio, pude perceber a excitação dos ativistas frente à aproximação da hora de início da manifestação. Alguns terminavam de produzir suas faixas e cartazes, enquanto outros se posicionavam na saída rumo ao local previsto para o início dos protestos com instrumentos musicais, fantasias e até mesmo objetos de malabarismo.

Na hora marcada, essa massa de manifestantes começou a descer o Passeio do Prado aos gritos de “Que no, que no, que no nos representa!”, “A, anti, anticapitalista!” e “El pueblo unido jamás será vencido”, entre outros hinos. Cada vez mais pessoas iam se somando ao grupo, enquanto ele se aproximava do cruzamento do Passeio do Prado com a Rua Atocha. Ali, um microfone aberto à livre expressão possibilitava a quem quisesse, compatilhar suas reclamações com outras milhares de pessoas. De acordo com o jornal El País, a mobilização estava composta por 35.700 cidadãos.

Depois de cerca de meia hora de concentração, essa multidão tomou novamente os dois lados do Passeio do Prado, desta vez no sentido contrário, rumo à Puerta del Sol, local previsto como ponto final da manifestação. A caminhada se fez com euforia e um alto ruído de vozes e percussão, que atraía até mesmo o olhar mais apático. Dentre os símbolos e mensagens hasteados pelos participantes do protesto, chamavam a atenção faixas divulgando o nome de Assembleias de diversas cidades espanholas, e também algumas bandeiras de diferentes comunidades autônomas do país, como País Basco e Catalunha.

Havia, inclusive, blocos de indignados unidos pela cor da camiseta, em que estampavam sua identificação com o 15-M e uma alusão à localidade de onde vinham. Todas essas pessoas, tão preocupadas em se fazer notar por suas peculiaridades, mostrava-se ao mesmo tempo unida de maneira coesa, já que em nenhum momento se escutou qualquer ação de desrespeito vindo de um desses subgrupos em direção a outro.

Porém, não só apoiadores de 15-M eram encontrados na mobilização. Enquanto caminhava, fui abordada por um garoto que divulgava um jornal chamado Socialismo Libertário, de conteúdo crítico ao movimento iniciado na Puerta del Sol. “Participei ativamente da acampada aqui, e pude ver que a organização do movimento é insuficiente para resolver os atuais problemas. Por exemplo, eles pedem uma nova Constituição para a Espanha, mas excluem os imigrantes da participação cidadã. Além disso, fui impedido de divulgar os materiais da organização Socialismo Libertário, da qual faço parte, dentro do acampamento”, reclamou.

Embora essa ênfase demasiada do jovem na defesa da organização que representa tenha me incomodado um pouco, dei razão a suas palavras no que diz respeito a sua preocupação com a causa da imigração. De fato, é visível pelas ruas de Madrid e Barcelona que a população mais afetada pelas desigualdades produzidas pelo sistema capitalista é aquela vinda de outros países em busca de oportunidades de trabalho.

No entanto, essas pessoas que ocupam funções laborais pouco valorizadas, em sua grande maioria, não parecem identificadas com os lemas da luta do 15-M, cujo maior disparador foi a rápida elevação do desemprego entre a população europeia. Durante os protestos de sábado e ontem, viam-se mulheres e homens chineses, bem como garotos indianos vendendo cerveja aos indignados. Enquanto trabalhavam clandestinamente, tais estrangeiros pareciam vislumbrar como único efeito positivo dessas manifestações a oportunidade de ganhar um dinheiro extra sobre o gosto da juventude pelo álcool.

Em Madri, que tem tamanho e ritmo de vida típicos de metrópole, a exclusão social se faz mais visível que em Barcelona, seja pelo contraste entre prédios de arquitetura clássica imponentes e desempregados que dormem pelas ruas, ou devido à quantidade de lojas e restaurantes caros em oposição à contínua redução do salário da população que trabalha nesses locais.

Pensava nisso, quando li no cartaz segurado por um garoto que estava a minha frente a seguinte frase “o mês acaba antes do fim do dinheiro”. Nesse instante, os manifestantes chegavam à Praça de la Cibeles, onde o Passeio do Prado termina, cruzando a rua Alcalá. Ali, começaram a gritar: “aqui, cova de Alibabá”.

Percebi que a fala em coro era dirigida ao Banco da Espanha, prédio luxuoso localizado na esquina entre as duas avenidas antes mencionadas. O edifício foi pichado com a frase: “Se os jornais mentem, as paredes falarão”, e também teve cartazes contendo a palavra “culpables” fixados em suas portas. Diante dessa ação mais radical, um cordão de policiais se formou em torno do banco, mas nenhum desses agentes precisou usar de violência para conter qualquer manifestante.

Foi então que um grupo artístico de indignados se defendeu da intimidação provocada pela Polícia, bailando ao som de tambores e simulando um embate entre ativistas e um indignado vestido de policial, cuja fantasia consistia em escudo e capacete de plástico, cassetete cor-de-rosa de borracha e um coador como proteção para a boca. Em seguida, parte dos manifestantes rumou à Gran Via, de onde, passando pela Praça do Callao, partiram para a rua dos Preciados. Nessa via, que desemboca na Puerta del Sol, jovens escalaram andaimes de prédios em reforma para tirar fotos e fazer vibrar do alto bandeiras anarquistas.

Pouco depois, ao passar por uma loja H&M, rede multinacional de venda de roupas, os indignados gritaram “em domingo, não se trabalha” e “faz falta já uma greve geral”, chamando os vendedores para que se somassem ao protesto. Nesse ponto da mobilização, havia uma exaltação especial, talvez porque a rua estreita fizesse ecoar o grito da massa, potencializando sua força, e também devido à movimentação inofensiva de um avião das forças de segurança do Estado, que sobrevoava o local. Com esse ânimo, os militantes do 15-M alcançaram o ponto de chegada, onde escalaram estruturas de bancas de jornal e tabacarias ou se sentaram para descansar sobre o solo da praça, até decidir, em segundos, que todos rumariam ao Congresso Nacional.

Assim, o grupo se reuniu novamente para tomar a Carrera de San Jerômino em direção ao Parlamento, onde já os esperava uma equipe de policiais, que protegia os quatro diferentes caminhos de acesso ao edifício oficial. Impedidos dessa maneira de acampar frente à Casa dos deputados federais como queriam, os indignados fizeram cerca de uma hora de protestos do lado de fora de uma grade instalada pelos policiais para impedir que os manifestantes se aproximassem.

Aproveitando o grande contingente de pessoas ali reunidas, foi realizada uma assembleia para definir as próximas ações do movimento naquela noite. As propostas se dividiam entre: montar acampamento no passeio público onde estavam, ultrapassar a barreira de policiais para tentar acampar na porta do Congresso, ou voltar ao alojamento no Passeio do Prado para descansar e poupar forças para atitudes mais efetivas nos próximos dias.

Ganhou a primeira opção porque os indignados queriam resistir, mas temiam as conseqüências legais e a possibilidade de sofrerem agressões, diante de uma tentativa de ultrapassar a grade imposta pelos policiais. Os manifestantes montaram, então, suas barracas em duas diferentes entradas para o Congresso: a da Carrera San Jerônimo e outra localizada diante da Plaza Neptuno.

Nesse último local, a acampada virou a noite, enquanto no primeiro, os manifestantes se dispersaram a partir das 3 horas. por entender que aquela ação não levaria a nada além de fazer com que os policiais perdessem uma noite de sono. Isso porque no domingo os parlamentares não trabalhavam e hoje, segunda-feira, é feriado em Madri pelo dia de Santiago e, portanto, mais uma vez não haverá atividade legislativa.

É possível, no entanto, que nesta tarde novas manifestações aconteçam na cidade, em pontos de maior visibilidade. Mas, por enquanto, só estão mesmo na programação encontros para debates de ideias e formulação de planos mais estratégicos, divididos por temas. Essas discussões se concentrarão no Parque del Retiro de Madri, onde acontece um Fórum Social desde a manhã de hoje. A ver o que passa nessa reunião, cujo objetivo é aproveitar uma oportunidade única de intercâmbio entre jovens indignados de diferentes países e localidades da Espanha, que chegaram a Madri com mais sonhos que bagagem.

Fabíola Munhoz é Jornalista, correspondente de Barcelona da Carta Maior.

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