O grande problema da munição

Descontrole do Estado sobre as munições.

“A munição é um grande problema”, constatou o juiz de Direito Marcelo Alberto Chaves Villas, titular da Vara Criminal de Itaboraí, ao conduzir processo que apurou, em 2008, o envolvimento de policiais militares no desvio de armamento para o varejo do tráfico de armas. Com essa convicção — sem depreciar a gravidade do tráfico de armas e de explosivos —, o magistrado desenvolveu o seu depoimento na oitava sessão da CPI das Armas da Alerj, realizada na tarde de segunda-feira (9/5).

Para Marcelo Villas, que antes de se tornar magistrado serviu ao Exército e também atuou como delegado da Polícia Civil do Rio de Janeiro, a maior parte, quase a totalidade, da munição apreendida pelas polícias no estado em poder de criminosos tem origem no Brasil. “É imperioso que esta ilustre comissão investigue como tais munições de fabricação nacional estão sendo desviadas para paióis criminosos, uma vez que os fabricantes de munições, de acordo com o Estatuto do Desarmamento, somente podem vendê-las ao poder público ou a particulares com prévia autorização da Polícia Federal ou do Comando do Exército”, afirmou.  Segundo Villas, a vida útil da munição, por ser muito menor do que a das armas, torna a demanda por esse artigo muito maior e, consequentemente, esse mercado muito mais dinâmico.

Em 2008, a partir de denúncias anônimas, teve início investigação da Polícia Federal em Itaboraí sobre suposta coação de eleitores por parte de traficantes e milicianos. Não houve comprovação de crime eleitoral, mas, como ficou evidente a prática de crime comum, o caso foi encaminhado à Vara Criminal de Itaboraí. “O principal alvo da investigação foi o traficante José Ricardo Couto da Silva, o Ricardo Paiol, do Comando Vermelho, que foi dono de bocas no município antes de se tornar o chefe do tráfico em favelas da Tijuca (Turano, Fallet e Fogueteiro). A própria alcunha do traficante já denotava qual era a sua função específica na estrutura criminosa”, contou Villas.

A investigação comprovou que o abastecimento de armas e de munição, inclusive recarregável, da quadrilha do traficante Ricardo Paiol contava com o auxílio efetivo de um policial militar, o cabo Ricardo Galdino, lotado, justamente, no depósito central da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, localizado em Niterói. “Não bastasse atuar no órgão do estado incumbido de recebimento e distribuição de todos os materiais adquiridos pela corporação, especialmente de todas as armas de fogo e munições, Galdino ainda detinha autorização do Comando do Exército para a prática de tiro esportivo, coleção de armas e para recarregar munições. Dessa forma, ele adquiria os insumos para a recarga de munição via Sedex”, explicou o juiz criminal.

“Até que ponto esses paióis não estavam vulneráveis à ação de traficantes de armas?”, questionou Marcelo Villas, referindo-se à situação do depósito central e do paiol do 35º BPM (Itaboraí), cujo armeiro, o sargento Paulo César Rocha, também foi preso por desvio de armas e munição. Segundo o juiz, foi possível, inclusive, identificar que pertencia à Polícia Militar parte da munição de fuzil 762, fabricada pela CBC, que foi apreendida na casa de Ricardo Paiol.

CPI da Armas na ALERJ

Villas sugeriu à CPI das Armas a criação de varas especializadas no crime organizado; ações mensais de fiscalização nos paióis policiais pela Corregedoria Externa de Segurança Pública e um processo mais rigoroso de investigação social dos policiais encarregados pelos depósitos.

“O depoimento do magistrado é dos mais importantes para a CPI das Armas. Traz elementos que comprovam a gravidade do descontrole do sistema, especialmente no que se refere ao controle dos paióis e de seus agentes. A gente precisa aprofundar esse debate em torno do controle sobre colecionadores e membros de clubes de tiro envolvidos com a segurança pública. Precisamos, por exemplo, saber quantos e quais são os policiais que estão nessa condição”, disse o presidente da CPI, deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL), que vai convidar o comandante-geral da PM para depor na CPI das Armas. Na próxima segunda-feira (16/5), Freixo vai, com os demais membros da CPI, à CBC, fábrica brasileira que detém o monopólio da produção de munição no país.

Fonte: Mandato Marcelo Freixo

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s