Israel: Movimento de massas contra o governo do Capital

Por Shahar Ben-Khorin

6 de agosto de 2001 viu 300 mil pessoas inundando as ruas de Tel-Aviv, Jerusalém e outras cidades de Israel e gritando: “O povo exige justiça social!” – ecoando os slogans dos levantes revolucionários no mundo árabe. Em termos absolutos, foi a maior manifestação já vista em Israel. Com um desemprego oficialmente baixo e a economia crescendo, Israel é agora abalado por um movimento de massas histórico. Ainda não pelas oprimidas massas palestinas, mas principalmente por judeus israelenses, pondo em questão o apoio ao regime. 

O que resta das palavras do Primeiro Ministro Benjamin Netanyahu no fim de março: “há apenas um país no coração do Oriente Médio que não possui nenhum tremor, nenhum protesto… Veja isso. A terra tremendo em todo lugar, do oeste da Índia até o Estreito de Gibraltar. Tudo está tremendo e sacudindo e o único lugar estável, o único país estável, é o democrático Israel – um país próspero e desenvolvido, todos são iguais perante a lei, com um exército forte porque tem uma sociedade forte”?

O governo de Netanyahu admitiu ter oferecido refúgio político a Mubarak em Israel. Agora, a juventude militante está gritando nos bloqueios de ruas: “Mubarak – Assad – Bibi Netanyahu!” indicando seu desejo de ver a derrubada da face israelense da ditadura do capital.

Parcialmente influenciadas pelos movimentos do sul da Europa, algumas barracas foram montadas em protesto por um grupo de jovens de classe média na rica Avenida Rothschild, no centro de Tel-Aviv em 14 de julho contra o alto custo da habitação. Alguns falavam em ficar apenas alguns dias. Mas sua iniciativa se tornou o sinal para abrir as comportas da repulsa há muito acumulada contra o alto custo de vida e o governo do capital no país. Em alguns dias, falava-se entre funcionários do governo que o protesto social que estava surgindo poderia derrubar o governo.

Nas barracas pelo todo o país há se discute a maneira de mudar a sociedade e pessoas em todo lugar se atrevem a pensar em um futuro diferente, melhor. Não é uma situação revolucionária, mas todos concordariam com a necessidade de uma “revolução social” para a “justiça social”. Comparados com a alienação e agonia oferecidas pelo capitalismo e militarismo, não surpreende que em Tel-Aviv e outras ‘cidades de barracas’ haja um sentimento festivo, com música, filmes e peças satíricas.

Do boicote à greve

Poucas semanas antes dos protestos das barracas começarem, um bem sucedido boicote de massas simbólico ao queijo cottage, organizado via Facebook, forçou as corporações do cartel da indústria leiteira a reduzir seu preço. Mas rapidamente a ideia de que um boicote de consumidores traria uma solução ao pesado custo de vida foi deixada de lado e substituída por uma estratégia de protestos de massa ativos, com barracas, marchas de protesto, bloqueios de rua etc. Os protestos das barracas se espalham como cogumelos depois da chuva por todo o país. Eles se tornaram o imã para quase todos os outros protestos sociais que se uniram neste dramático movimento, que estão atraindo muitos para os primeiros protestos de sua vida – não apenas jovens e crianças, mas também pais que marcham em protesto com o alto do custo de vida. Não apenas professores “privatizados” e motoristas de taxi, mas até policiais e guardas de prisão, que estão proibidos de se sindicalizarem, participaram de alguns dos protestos para visualizar seus salários baixos. No ato de 300 mil, torcidas “esquerdistas” criaram um pôster do tamanho de um prédio de um soldado da Revolução Russa com o título inglês “classe trabalhadora”. Esses são apenas alguns exemplos das iniciativas tomadas. 

O governo vacilava nas suas táticas de lidar com o movimento, ziguezagueando entre tentativas fracassadas de diminuir e deslegitimar o movimento ou contê-lo parecendo simpatizar com ele e disfarçando suas agressivas medidas neoliberais como “soluções” às demandas dos manifestantes, e depois voltando a exibir arrogância e provocação. O movimento como um todo ainda não exige claramente a derrubada do governo, mas nenhuma das táticas desse realmente funcionou. A tentativa de acelerar a privatização da terra (mantida em sua maioria nas mãos do Estado) e de entregá-la quase de graça aos tubarões imobiliários, acirrou a indignação do movimento e apenas o fortaleceu. De quase 30 mil no ato central após a primeira semana, ele cresceu cinco vezes, quando protestos paralelos foram realizados em todo o país. Mais uma semana e 300 mil foram mobilizados!

Desde as primeiras etapas, havia uma camada significativa de manifestantes que chegava à conclusão que todos os vários atos não eram suficientes em si mesmos contra esse governo, e era preciso uma ação grevista. Em alguns dias, 20 mil se uniram a um chamado do Facebook por uma greve geral de indivíduos em 1º de agosto. A organização dos municípios, controlada pelos prefeitos capitalistas, foi varrida por essa iniciativa e realizou fechamentos parciais nesta data a fim de aumentar a pressão sobre o governo para resolver a crise. Finalmente, o sonolento Histadrut, a principal organização dos trabalhadores, foi arrastada para o movimento. 

Intervenção do Histadrut

Sentindo o clima, o presidente do Histadrut, Offer Eini, muito influente em seu Partido “Trabalhista”, começou sua intervenção tentando se mostrar com cores radicais, atacando todos os governos anteriores, incluindo os “trabalhistas”, por transformarem o Estado “de um dia para outro de políticas socialistas, onde o Estado garante seus cidadãos, para o mercado capitalista”. Ele louvou os jovens líderes do protesto, e ameaçou o governo de que o Histadrut usaria todos os meios se o governo não começasse a levar a sério as demandas dos manifestantes. Mas logo que essas demandas tomaram a forma de pedidos por reformas radicais, incluindo educação e saúde públicas e gratuitas, Eini vergonhosamente se uniu ao coro capitalista ao ridicularizar essas demandas como infundadas e “irreais”, como se ele não estivesse à frente da mais forte organização de trabalhadores de Israel. Ele também enfatizou que os manifestantes precisavam respeitar o primeiro ministro e que ele esperava que o governo não caísse!

Nos últimos anos, a direção colaboracionista, direitista e pró-capitalista de Eini levou a uma política declarada de paz sindical e fez com que o número de greves em Israel chegasse a uma baixa histórica, como parte de uma aliança formal com os capitalistas industriais e de acordos destrutivos com os diferentes governos. Contra esse pano de fundo, o comício muito limitado de 10 mil trabalhadores organizado pelo Histadrut ainda assim foi um evento raro. Muitos entre os milhares não se identificavam com o slogan do Histadrut, “trabalhadores A FAVOR do protesto”, como se trabalhadores não devessem jogar o papel principal na luta contra os altos custos e o governo do capital. No comício, Eini fez uma fala hipócrita de apoio à raiva contra a deterioração rápida das condições de trabalho nas últimas décadas. Isso foi demais para os estivadores e salva-vidas e outros que estavam ao lado dos ativistas do Movimento de Luta Socialista (CIT). Eles gritaram: “Trabalhadores exigem uma greve geral!” e praguejaram contra a hipocrisia deste falso líder. Esses gritos foram abafados pela juventude do “sionista socialista” No`al que estavam lá. Além das tentativas de arrancar megafones, eles começaram a gritar “Trabalhadores exigem justiça social”, o que naquela situação se tornou uma frase vazia.

Para uma significativa camada da classe trabalhadora organizada, Eini e seus iguais são odiados pelas políticas de traição que promovem, servindo os trabalhadores como carne fatiada aos capitalistas e ao governo do capital. Com o crescente custo de vida, diferentes grupos de trabalhadores começaram a tomar o caminho da luta poucos meses antes do atual movimento. Trabalhadores do serviço social até se rebelaram, de forma gritante e sem precedentes, contra uma tentativa de Eini de ditar a eles um acordo ruim após sua greve em março. Isso levou à criação de um movimento de oposição dentro do sindicato do serviço social. A atual greve dos médicos foi quase vendida durante os primeiros dias do protesto das barracas, quando os residentes seguiram o exemplo do serviço social e se rebelaram contra a direção da organização separada dos doutores, e toda a greve ganhou um novo ímpeto e esmagador apoio social. Em paralelo, dentro do Histadrut, faz tempo que há uma tendência de trabalhadores que ameaça, e às vezes cumpre, abandoná-lo para se unir à nova pequena central militante “Poder aos Trabalhadores” – entre eles os trabalhadores da fábrica Haifa Chemicals North, atualmente engajados numa difícil greve de 3 meses. Essas tendências são sinais iniciais do potencial para um novo movimento independente dos trabalhadores pela primeira vez em Israel. 

O governo claramente espera que, com o histórico de fura-greve de Eini, incluindo a traição da recente greve do serviço social, ele irá ajudar a conduzir o protesto a um “pouso suave”. Isso, é claro, não está garantido, já que Eini e sua burocracia não cometeriam “suicídio”, mas tentarão navegar para sua própria sobrevivência através das pressões conflitantes dos trabalhadores, patrões e de seu governo. É por isso que a direção apoiou uma greve bastante militante dos ferroviários recentemente. Embora não seja provável que isso aconteça em breve, eles podem até ser obrigados a declarar uma greve geral mais tarde, se o movimento não morrer até agosto. O Movimento de Luta Socialista promove o chamado por uma ativa greve geral de alerta de 24 horas pelo Histadrut, e pede que comitês de trabalhadores se tornem diretamente envolvidos nos protestos onde for possível, e discutam as demandas do movimento e seus possíveis próximos passos, incluindo greves parciais. 

Conflito Israel-Palestina

De forma significativa, algumas barracas árabe-palestinas foram montadas em Israel, usando o ímpeto para levantar demandas por habitação decente e contra a discriminação racista-nacionalista que impõe os piores problemas de habitação à população palestina e árabe de Israel. Isso acontece apesar do fato de que muitos dos palestinos residentes em Israel acharem que esse não é o “seu” protesto – em parte um reflexo da ideia muito difundida de “unidade entre direita e esquerda”, que na realidade significa nenhuma menção de resistência à ocupação, e assim o desejo oculto de paz não está aparecendo no momento junto com os gritos por “justiça social”. Um fator por trás disso é a compreensão que o conflito Israel-Palestina serviu à classe dominante para enfraquecer todos os protestos sociais anteriores. Contudo, uma abordagem que ignore o conflito nacional é uma armadilha perigosa, precisamente porque faz o jogo da classe dominante israelense, e age para isolar esse levante sobre as condições de vida de todo o resto das lutas da região, especialmente a luta palestina por direitos e independência. 

Até agora, nenhuma tentativa do establishment de deslegitimar o movimento em si teve sucesso (um dos organizadores do centro de Tel-Aviv até foi acusado por um vídeo anônimo da ultra-direita de ser membro do Movimento de Luta Socialista, que alegam é controlado por um fundo de ONG esquerdista). Mas enquanto esse movimento e os que o seguirão não abraçarem definitivamente uma abordagem de solidariedade com as massas palestinas e contra a ocupação e os assentamentos, eles tenderão eventualmente a se dividirem bruscamente quando enfrentarem a escalação do conflito entre Israel e os palestinos ou Israel e os países da região. Os falsos alertas de segurança dados pela classe dominante israelense à população judia servirão para fraturar o movimento, e para usar parte dele para oprimir a luta palestina, que está no caminho para uma heróica intensificação, também. 

Um sinal de alerta é dado pela infiltração de elementos de extrema-direita que se disfarçam e parasitam o movimento, atiça o nacionalismo, promovem os projetos de assentamentos e incitam violentamente contra os árabes-palestinos, refugiados africanos e imigrantes. Uma marcha de protesto judia-árabe pelos bairros empobrecidos do sul de Tel-Aviv, Jaffa e outras cidades foi cancelada após ameaças de kahanistas de extrema direita. Barracas judia-árabes em Tel-Aviv sofreram ataques físicos. Esses elementos de extrema-direita são reconhecidos como ameaça por uma minoria das camadas mais radicais do movimento, que buscam um meio de expulsá-los. Por exemplo, alguns militantes queimaram barracas da extrema-direita. Mas a efetiva limpeza de tais elementos só pode ser realizada com sucesso com a adoção aberta das ideias de uma luta solidária unificada entre todos os explorados e oprimidos, judeus e palestinos, e de oposição ao racismo e à ocupação. Enquanto isso, o chefe da Associação Estudantil se sentiu confiante o suficiente para saudar calorosamente a principal organização de colonos por se “unir ao protesto”, embora ela seja outra serva importante da reação. 

Pondo o socialismo na agenda

Uma carta de alguns grandes capitalistas ao primeiro ministro se atreveu a expressar apoio aos protestos e vergonhosamente expressou preocupação com o custo de vida dos trabalhadores. Na verdade, esses magnatas temem a eclosão da raiva contra o governo do capital. Pouco antes do movimento eclodir, alguns deles tentaram promover uma lei para banir um termo comum para empregadores na legislação, que literalmente significa “os que escravizam/forçam outros trabalhar”! Agora, em desespero, expressam sua disposição de sacrificar a cabeça de Netanyahu para desviar o fogo. 

De seu lado, Netanyahu espera usar ou o espectro de uma recessão econômica, ou a próxima votação da ONU sobre o Estado Palestino como uma desculpa para embotar o movimento em nome da “unidade nacional” judia israelita. 

A mídia capitalista tendia a dar uma cobertura muito “simpática” ao movimento desde o início. A imprensa financeira tentou apresentá-la como uma rebelião contra a “centralização do mercado” e por “mais competição” entre capitalistas. Essas são as mesmas vozes que trabalham para ridicularizar os pedidos por verdadeiras reformas sociais. 

Claramente, vários capitalistas ponderam sobre a possibilidade de poderem canalizar essa tempestade de classe para a substituição do governo de coalizão por um que possa ser mais confiável a eles tanto geo-estrategicamente quanto por diminuir a tensão social – talvez até com a folha de figueira de um novo partido político ‘social’ que surja desse movimento, que ainda parece atrair quase 90% de apoio em diferentes pesquisas de opinião. Um suposto partido que surgisse do movimento, diz uma pesquisa de opinião, poderia ganhar 20 das 120 cadeiras do parlamento e se tornar um dos maiores partidos!

Mas há muita confusão sobre esse ponto, e apenas uns poucos apoiariam imediatamente a fundação de tal partido. Isso é parte do enorme fosso geral entre os anseios dos jovens e trabalhadores por uma mudança radical da situação e os passos e demandas concretas apresentados nessa etapa. A percepção geral ainda é que a melhor coisa a fazer é continuar a aumentar a crescente mobilização por meio de protestos, com uma iniciativa falando de um ato de um milhão em 3 de setembro. Muitos duvidam que isso possa ser conseguir alguma mudança, mas não vêem outro caminho. Sem uma alternativa socialista clara na mesa, muitos sentem nostalgia do passado de quase Estado de bem estar social em Israel, onde as condições de vida e trabalho eram muitíssimo mais seguras, mas mesmo com esse conceito vago e irrealizável de “corrigir” o capitalismo israelense, há confusão sobre os passos para a luta por esse objetivo. 

Obviamente, há um crescente apoio para a ideia da necessidade de greve, de um partido “diferente” para representar a voz de tais lutas, de cortar drasticamente os impostos indiretos, e que o governo intervenha para “habitação de preço acessível”. Mas as demandas pela nacionalização e por medidas fortes contra os magnatas não são as centrais (por essa razão, por exemplo, o Movimento de Luta Socialista substitui o popular “Resposta à privatização: revolução!” por “Resposta à privatização: nacionalização!”). Um dos jovens que organizaram as barracas no centro de Tel-Aviv e, acidentalmente, se tornou um dos líderes do movimento, declarou várias vezes que as soluções para os problemas deveriam envolver o “livre mercado” e não contradizem o capitalismo. 

Embora ainda não seja claro até onde vai esse grande movimento, a grande rebelião contra o governo do capital em muitos sentidos ainda está no início. Um dos melhores frutos desse movimento é o aumento no interesse nas genuínas ideias socialistas e marxistas como soluções sérias para uma sociedade bancarrota. 

Os membros judeus e palestinos do Movimento de Luta Socialista estão intervindo todos os dias no movimento para contribuir o máximo possível, incluindo slogans de solidariedade entre trabalhadores e jovens judeus e palestinos, e contra a ocupação e pela paz (por exemplo: “A resposta ao ‘dividir e governar’: a ocupação também deve cair!”). 

Um de nossos camaradas mais novos, Orr Akta, de 12 anos, se tornou uma estrela de TV, como o “menino da revolução” – para a mídia do establishment ele é apenas uma atração e uma curiosidade, mas o camarada explica fluentemente à mídia as ideias do socialismo e apresenta o Movimento de Luta Socialista a muitas pessoas. Em geral, recebemos cobertura especial, incluindo matérias sobre nossa organização. 

Pessoas de todas as idades estão fazendo contato e querem discutir as ideias socialistas. Isso inclui um menino de 9 anos que nos enviou um pedido de filiação: “Eu sou socialista, sei tudo sobre o socialismo, meu irmão me ensinou, eu sou sério e vou aos atos”…

Shahar Ben-Khorin é do Movimento de Luta Socialista (CIT Israel/Palestina) – 13 de agosto de 2011

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