Resenha: “Como mudar o mundo” de Eric Hobsbawm

Por Peter Taaffe

A relevância das ideias de Karl Marx, Friedrich Engels, Vladimir Lenin e Leon Trotsky tem sido mostrada pelos eventos recentes. A crise financeira, a recessão econômica, a austeridade selvagem e ondas de revolução estão incentivando um novo interesse no socialismo e no marxismo. Intelectuais de esquerda estão ansiosos para pegar essa onda. Contudo, seus escritos quase sempre falham em fornecer respostas reais a essa questão, como mudar o mundo?

Eric Hobsbawm está desfrutando de um interesse renovado em suas ideias, especialmente com esse livro, no qual ele se propõe “mudar o mundo”. Isso, ele admite francamente, surge da crescente curiosidade com as ideias de Karl Marx. Entretanto, é uma pena que esse livro possa ser para muitos a primeira introdução às ideias de Marx. Seu subtítulo é “Contos de Marx e do marxismo”. Eles são de fato contos, já que o conteúdo do livro tem muito pouca relação com o que Marx realmente defendia e como o marxismo pode mudar o mundo na era moderna.

Hobsbawm possui um longo pedigree como acadêmico e teórico marxista. Ele parece abjurar de sua antiga posição de apoio servil ao stalinismo, mas ele ainda não rompeu totalmente com sua herança sinistra. Ele continuou dentro do Partido Comunista Britânico mesmo depois das obscenidades stalinistas da supressão da revolução política húngara de 1956 e do esmagamento da Primavera de Praga em 1968.

Mesmo neste livro, ele continua a empregar o termo ‘socialista’ em relação aos antigos regimes stalinistas da Rússia, Leste Europeu etc. Na verdade, esses regimes estavam muito mais perto do capitalismo do que das ideias de Marx, Engels, Lenin e Trotsky sobre o que constituía o socialismo genuíno – mesmo que possuíssem os elementos vitais de uma economia planificada baseada na nacionalização das principais forças produtivas e, assim, fossem relativamente progressistas. Continuar a descrever regimes totalitários unipartidários como “socialistas” ajudará os ideólogos burgueses a desacreditar o socialismo, em particular aos olhos da nova geração.

É incrível que Hobsbawm relegue Leon Trotsky e o trotskismo a um papel histórico menor. Como aponta Terry Eagleton, Hobsbawm destina “a uma das correntes mais férteis do marxismo moderno – o trotskismo – poucas frases casuais”. (London Review of Books, março de 2011) Mas é absolutamente impossível começar a entender o fenômeno do stalinismo sem ler e compreender as obras de Trotsky e da Oposição de Esquerda Russa e Internacional sobre essa questão. Além disso, não é possível abordar a luta pelo socialismo hoje sem eliminar qualquer apologia ou ligação com o stalinismo ou regimes totalitários e autoritários, que ainda são usados como espantalhos pelos ideólogos capitalistas para afastar a classe trabalhadora do verdadeiro socialismo democrático.

Isso é mostrado pelos resenhistas burgueses do livro de Hobsbawm. Embora louvando-o por sua erudição, eles mencionam sem piedade seu passado stalinista. Hobsbawm “nunca desmentiu de forma convincente as acusações de ser um apologista da União Soviética [leia stalinismo]”, escreve Dominic Sandbrook no The Sunday Times (9 de janeiro de 2011). Geoffrey Goodman, antigo correspondente sindical do Daily Mirror, argumenta, erroneamente, que Hobsbawm “não oferece nem ilusões nem desculpas para o fracasso do comunismo soviético” (Camden New Journal, 10/02/2011). Mas mesmo se isso fosse verdade, ele não oferece uma explicação real sobre porque o stalinismo triunfou e efetivamente estrangulou todos os ideais da revolução de Outubro: democracia operária e o objetivo internacional do socialismo mundial. 

Não há mistério porque Hobsbawm falha nisso. Um rigoroso exame, do ponto de vista marxista, o levaria às análises e conclusões defendidas por Trotsky: que uma revolução política contra os regimes stalinistas totalitários unipartidários poderia ter salvo as economias planificadas e restabelecer a genuína democracia operária. A continuação do stalinismo, que Hobsbawm não fez nada para derrotar, levou ao colapso dos regimes burocráticos e à liquidação das economias planificadas, o que foi uma enorme vitória ideológica para o capitalismo mundial. 

Um interesse renovado

No primeiro capítulo, Hobsbawm registra o interesse renovado no “marxismo” no período recente. Mesmo o bilionário especulador George Soros louvou Marx. Não há surpresa nisso; está intimamente ligado à atual crise econômica, uma das maiores a afetar o sistema que Soros defende, o capitalismo mundial. Contudo, os capitalistas estão mais interessados em Marx agora por causa do seu diagnóstico das moléstias do seu sistema de que no remédio que ele recomenda, o socialismo. 

Houve tempos na História em que os burgueses igualmente procuraram usar Marx para seus próprios fins. Por exemplo, na Rússia pré-revolucionária, ideólogos burgueses tentaram usar as ideias de Marx para defender a “inevitabilidade” de uma etapa de capitalismo a substituir o czarismo. Nisso, eles tiveram o apoio dos mencheviques – no início do século 20, a minoria do movimento operário russo – que diziam que o socialismo era algo para o futuro. Vladimir Lenin e em particular Trotsky, em sua famosa teoria da revolução permanente, se opunham e diziam que a revolução democrático-burguesa só poderia ser realizada por uma aliança da classe operária e do campesinato. Uma vez chegando ao poder, essa aliança seria obrigada a passar para a etapa socialista da nacionalização da indústria, da terra etc. Isso, por sua vez, provocaria a revolução socialista internacional. Foi isso o que realmente aconteceu após a 1ª Guerra Mundial e a revolução operária de outubro de 1917.

Se não fosse pela traição dos líderes socialdemocratas, uma revolução socialista democrática europeia seria realidade. Isso por sua vez teria transformado a situação objetiva na própria Rússia e erradicado o atraso, do qual o stalinismo surgiu. Tudo isso está ausente na análise de Hobsbawm. 

Hobsbawm, ao buscar responder ao interesse renovado no marxismo, afirma que há duas razões para isso: “A primeira é que o fim do marxismo oficial da URSS libertou Marx da identificação pública com o leninismo na teoria e com os regimes leninistas na prática”. Joga-se fora numa única frase a contribuição colossal de Lenin, que criou e liderou o Partido Bolchevique – o mais democrático partido operário de massas da história – fornecendo o “fator subjetivo” necessário para o maior evento da História, a Revolução Russa. É uma grosseira calúnia burguesa e stalinista ligar Lenin com a subsequente degeneração burocrática da revolução. Lenin e Trotsky defendia o socialismo – criando a base para isso na economia planificada da Rússia – e a democracia operária.

Também há uma rejeição superficial do “marxismo oficial da URSS”, com o qual Hobsbawm se identificou por um longo tempo. Mais uma vez, esquiva-se de qualquer análise histórica desse “marxismo oficial”, que, para dar-lhe um nome verdadeiro, foi uma distorção stalinista do genuíno socialismo democrático e das ideias do marxismo. Enquanto Hobsbawm for prisioneiro dessa camisa de força ideológica, ele continuará a cometer alguns dos erros políticos evidentes neste livro. 

Veja suas observações das bases econômicas da União Soviética: “A afirmação de que o socialismo era superior ao capitalismo como um meio de assegurar o desenvolvimento mais rápido das forças produtivas dificilmente poderia ter sido feita por Marx”. Essa é uma impressionante admissão de sua incompreensão “acadêmica” dos esquemas históricos traçados por Marx, e desenvolvidos pelos bolcheviques de Lenin e Trotsky e sua obra na Revolução de Outubro e subsequentemente. 

O socialismo continuará um sonho utópico a menos que possa desenvolver uma maior produtividade do trabalho, e seja capaz de desenvolver as forças produtivas – ciência, a organização do trabalho e a técnica – em um nível superior. Isso é necessário, Marx argumentou, no próprio período inicial do socialismo, seu nível mais baixo. Seu ponto de partida deveria ser um nível superior do que a economia capitalista mais avançada, por exemplo, os EUA hoje. Marx resumiu essa ideia em uma de suas primeiras obras, A Ideologia Alemã. Ele escreveu que, a menos que as forces produtivas pudessem se desenvolver em uma nova sociedade socialista, “a privação seria generalizada e toda a velha porcaria reapareceria”. Isso significa que as classes, o Estado, assim como os restos burocráticos da velha sociedade e a desigualdade existiriam e até cresceriam em certa medida na “nova sociedade”, a menos que possuísse um nível econômico e capacidade produtiva maiores.

Essa não é a razão porque o stalinismo se desenvolveu na Rússia? A Revolução de Outubro ocorreu sob o signo do socialismo democrático, da abolição da desigualdade e de um Estado operário democrático controlado pelas massas, com o controle e gestão dos trabalhadores. E isso existiu em grande medida no primeiro período imediato depois da Revolução de Outubro – mas em uma “fortaleza sitiada”. Os bolcheviques nunca acharam que isso poderia ser mantido, especialmente numa sociedade econômica e culturalmente atrasada como a Rússia, a menos que a revolução se espalhasse para o Ocidente – especialmente a Alemanha, que provavelmente tinha a capacidade industrial mais desenvolvida do mundo naquele período. Assim, toda a velha “porcaria” reviveu com o crescimento da burocracia, refletida, inconscientemente no início, por Stalin. A classe trabalhadora foi jogada de lado e o poder concentrado nas mãos de uma burocracia avara e ineficiente. Hobsbawm parece ignorar tudo isso, o que o leva a descartar os elementos progressistas da economia planificada que mostravam na prática, o que seria possível com base em uma genuína democracia dos trabalhadores.

Uma mistura eclética

O livro de Hobsbawm é uma mistura eclética, com nenhuma ideia clara sendo levada até o fim. Por exemplo, ele declara que “a tradicional visão socialista do socialismo [é de] essencialmente uma sociedade sem mercado, a qual provavelmente Karl Marx também compartilhava”. Não há nada de “provavelmente” nisso. A ideia de que o socialismo era a resposta ao capitalismo corre como uma linha vermelha por todas as obras de Marx. O que esse comentário realmente indica é que Hobsbawm, em plena fuga de sua anterior e equivocada posição pró-stalinista, está descartando os traços centrais da análise de Marx, em particular as relacionadas ao objetivo do socialismo. 

Essa não é a primeira vez que ele se engajou em tal exercício. Ele foi o sumo sacerdote do chamado “novo realismo”, que evoluiu da ala eurocomunista do Partido Comunista da Grã-Bretanha, em torno do jornal Marxism Today nos anos 1970s e 1980. Neil Kinnock apoiou-se bastante nas ideias de Hobsbawm para guiar o Partido Trabalhista para a direita, fornecendo a base para a expulsão dos marxistas em torno do jornal Militant (agora Partido Socialista) do Partido Trabalhista. Isso foi decisivo no surgimento do “blairismo” [de Tony Blair, ex-líder do Partido Trabalhista e premiê da Grã Bretanha], que transformou o Partido Trabalhista de um partido operário na base para uma formação burguesa. 

Hobsbawm e os eurocomunistas viam no declínio da classe operária industrial – um produto do chamado “pós-fordismo” – um enfraquecimento global do movimento dos trabalhadores, militância sindical e da consciência de classe. Os marxistas se opuseram a essas ideias, entre outras coisas apontando para a crescente militância sindical dos antigos “colarinhos brancos” – professores, postais, trabalhadores técnicos nos escritórios etc. A burguesia foi forçada a atacar essas camadas com as crises econômicas dos anos 1970 e 1980 e a necessidade de aumentar seus lucros e a acumulação capitalista. No processo, ela minou suas reservas sociais. As ideias do novo realismo eram em si produtos da ofensiva ideológica global do neoliberalismo – individualismo contra o chamado “estatismo” (privatização etc.) – que produziu todos os seus frutos após o colapso da antiga União Soviética e a liquidação das economias planificadas.

Hobsbawm, Kinnock e Blair não eram apóstolos de uma nova adaptação “realista” a condições modificadas. Eles representavam a liquidação do espírito combativo e da oposição classista programática do movimento dos trabalhadores a todos os aspectos das ideias e métodos pró-capitalistas. Qualquer avaliação verdadeira do fracasso das ideias do “novo realismo” está inteiramente ausente de seu livro. Hobsbawm menciona a reconciliação oportunista do líder socialdemocrata alemão Eduard Bernstein com o capitalismo, durante o boom do final do século 19. Mas ele e outros como ele fizeram exatamente o mesmo no movimento dos trabalhadores britânico num período similar – o curto boom econômico dos anos 1980. Além disso, eles se reconciliaram com o boom mais prolongado dos anos 1990. Nós, de outro lado, nunca deixamos de argumentar que a financeirização do capitalismo mundial estava criando enormes bolhas, o que terminaria em lágrimas para o capitalismo. Nosso prognóstico foi confirmado com a eclosão da atual e devastadora crise econômica, da qual o capitalismo está encontrando maior dificuldade para se desembaraçar. 

Em quase cada página, exemplos de louvor a Marx podem ser vistos ao lado de rejeições mal-disfarçadas de suas principais conclusões. No capítulo “Marx hoje”, de um lado Hobsbawm acredita que a ideia de Marx de que o capitalismo seria superado é “uma previsão que ainda soa plausível para mim”. No parágrafo seguinte, ele escreve: “A previsão [de Marx] de que a industrialização produziria populações empregadas como trabalhadores assalariados, como acontecia na Inglaterra na época… era correta como uma previsão de médio alcance, mas não, como sabemos, a longo prazo”. Pelo contrário, embora a classe operária industrial tenha declinado nos antigos países industrializados, com a industrialização da China, Índia e Brasil, as ideias de Marx ainda mantêm sua validade, de um ponto de vista mundial. Numa escala global, a classe operária industrial provavelmente cresceu nos últimos 10 ou 20 anos, em números e no seu peso específico na sociedade.

Mesmo que esse não fosse o caso, a proletarização das antigas camadas “privilegiadas” significa que hoje elas formam um setor substancial da classe trabalhadora, e estarão envolvidas na tarefa de “expropriar os expropriadores”, o socialismo democrático. Hobsbawm procura sanear as conclusões mais revolucionárias de Marx, torná-las mais aceitáveis, talvez para a academia e a opinião pública burguesa e pequeno-burguesa. No processo, ele embota a mensagem para os trabalhadores, especialmente os jovens, que se engajam em uma poderosa luta contra o capitalismo. 

Isso se mostra claramente quando Hobsbawm lida com a questão do Estado: “A teoria marxista madura do Estado era assim consideravelmente mais sofisticada do que a equação simplista: Estado igual a poder coercivo igual a domínio de classe”. Contida nessa linha está a mesma abordagem oportunista, iniciada pelos reformistas socialdemocratas alemães e suas contrapartes inglesas e francesas, para com o problema do Estado capitalista. Como admite Hobsbawm, Marx foi muito claro que a classe trabalhadora deveria apenas tomar o poder se estivesse organizada “como classe dominante” através da “ditadura do proletariado”. Esse termo não denota, como dizem os caluniadores de Marx, um tipo de antecipação do stalinismo unipartidário ditatorial. A ideia de Marx significa o que mais tarde ocorreu na Rússia, em outubro de 1917: um Estado organizado como uma “democracia dos trabalhadores”. Para os marxistas, esse termo é preferível hoje. Não usamos o termo “ditadura” porque ele evoca visões de regimes totalitários como sinônimos da ideia de uma sociedade socialista. 

Hobsbawm qualifica “sua” definição marxista do Estado: “O conceito do Estado como poder de classe foi modificado, especialmente à luz do bonapartismo de Napoleão III na França e nos regimes pós-1848, que não poderiam ser simplesmente descritos como o governo de uma burguesia revolucionária”. Essa não é uma interpretação válida de Marx – e certamente não completa – sem falar de Engels, Lenin e Trotsky. Marx descreveu de forma brilhante o fenômeno do bonapartismo, onde, por causa do impasse na luta de classes, o Estado é capaz de manter uma relativa independência e equilíbrio entre as classes. Não obstante, em última análise ele representa a “classe econômica dominante”, que na França pós-1848 era a burguesia, que já não era tão “revolucionária”. Hobsbawm procura diluir a concepção marxista do Estado a fim de contrabandear a ideia de que o Estado pode de algum modo ser “reformado”. A luta é vista por ele como tirar o poder da classe dominante – os capitalistas – e criar um novo Estado. Uma ruptura profunda, assim, é desnecessária para se estabelecer o socialismo.

Escondendo-se atrás de Gramsci

Isso mostra toda a abordagem de Hobsbawm, revelada no capítulo que trata de Antonio Gramsci, líder do jovem Partido Comunista Italiano (PCI) após a 1ª Guerra Mundial, que foi encarcerado por Mussolini e morreu na prisão. Gramsci possuiu muitas qualidades excelentes. Trotsky, por exemplo, atribui a ele a compreensão do caráter do fascismo – que após a vitória de Mussolini em 1922, dominaria a classe trabalhadora, enfraquecida e dispersa, por muito tempo – antes do que outros, incluindo o próprio Trotsky. Mas Hobsbawm afirma que ele foi “o mais original pensador produzido pelo Ocidente desde 1917”. 

Gramsci, por causa de sua prisão, foi afastado dos eventos da Itália e internacionais. Portanto, não foi possível para ele formar um quadro completo do desenvolvimento dos movimentos operários e, em especial, dos eventos na Rússia, com a ascensão do stalinismo. Mas não é por acaso que Hobsbawm se baseia na figura de Gramsci. Ele pensa que encontrou em alguns de seus escritos na prisão uma explicação teórica da adaptação sua e do PCI [Partido Comunista Italiano] ao capitalismo. Por acaso é acidental que o longevo líder do PCI, Palmiro Togliatti, também tenha usado as supostas ideias de Gramsci para girar seu partido para a direita? O efeito global das ações de Togliatti e de seus sucessores iria levar efetivamente à desintegração do outrora poderoso PCI. 

A tentativa de Hobsbawm de distinguir as condições objetivas da Itália para explicar o caráter único do movimento operário italiano e a figura de Gramsci é unilateral, para dizer o mínimo. Ele realça o caráter da Itália, que combinava traços das condições atrasadas e semifeudais com os elementos da modernidade, indústria, fábricas no norte etc. Mas a Itália não era o único país, mesmo na Europa, onde a classe operária era minoria, com uma população rural, o campesinato, junto com o resto da classe média, formando uma maioria. Na Alemanha e França, a tarefa de ganhar essas camadas intermediárias para o lado da classe trabalhadora também estava colocada.

Hobsbawm declara que Gramsci “foi pioneiro em uma teoria marxista da política”, considerando a “política como uma ‘atividade autônoma’.” Hobsbawm invoca Gramsci para sublinhar “o papel autônomo da superestrutura no processo social, ou mesmo o simples fato que um político de origem trabalhadora não é necessariamente o mesmo que um trabalhador no chão de fábrica”. Gramsci também procurou analisar o papel ideológico dos “intelectuais”. 

É claro que há mais de um grão de verdade nessas ideias. A política não é um reflexo automático da situação econômica. Se fosse o caso, a política da classe trabalhadora hoje seria claramente revolucionária, dada a devastadora crise econômica mundial. A consciência – que é o fundamento para uma abordagem marxista da “política” – é formada pelos eventos, junto com a intervenção das organizações da classe trabalhadora, e se desenvolve de maneira contraditória. Uma crise econômica não leva automaticamente à radicalização das massas e ao aumento da consciência, não mais do que um boom a diminui. A Revolução Russa de 1905-1907 foi seguida por uma crise econômica. Isso não levou a uma radicalização das massas, pois veio depois da derrota da revolução. De outro lado, o boom iniciado em 1910, ao fortalecer economicamente a classe trabalhadora, lançou as bases para um aumento da luta de classes. Dito isso, contudo, a política não é completamente “autônoma”. Os marxistas não são reducionistas grosseiros. A política, como o próprio Estado, pode manter uma certa “autonomia” relativa por um tempo. Mas, em último caso, ela depende e reflete as sortes da classe dominante, da classe media e da classe trabalhadora.

Hobsbawm trai suas verdadeiras intenções ao esboçar as supostas ideias de Gramsci: “A Itália era um país que, depois de 1917, várias das condições objetivas e até subjetivas da revolução social pareciam existir – mais do que na Grã-Bretanha e França e até, eu sugiro, Alemanha. Mas essa revolução não veio. Pelo contrário, o fascismo chegou ao poder. Era apenas natural que os marxistas italianos deveriam ser pioneiros na análise de porque a Revolução Russa fracassou em se espalhar para os países ocidentais, e quais a estratégia e táticas alternativas de transição ao socialismo deveriam ser buscadas em tais países”. 

Parafraseando Trotsky, cada palavra aqui é um erro, e algumas são dois. Condições objetivas diferentes não eram a razão primária para a revolução não ter ocorrido na Europa – embora houvessem condições diferentes em todos os países europeus, em especial se comparados com a Rússia. As oportunidades para a revolução eram maiores por causa da maior força da classe trabalhadora e dos enormes levantes que se seguiram à 1ª Guerra Mundial. Nem o fracasso da onda revolucionária estava na consciência subjetiva da classe trabalhadora, que se atirou contra o capitalismo após a Revolução Russa. Foi devido inteiramente ao pérfido papel dos líderes socialdemocratas que traíram a revolução. Hobsbawm indica seu completo menchevismo quando sugere que a Grã-Bretanha e a França não estavam prontas para a revolução após 1917, “ou mesmo a Alemanha”.

O movimento operário alemão era provavelmente o mais forte do mundo fora da Rússia nessa etapa. Entre 1917-23 a classe operária alemã tentou várias vezes tomar o poder, atirando-se contra o capitalismo em poderosos movimentos de massa. Em 1923, os trabalhadores alemães, face a uma posição muito favorável, falharam em tomar o poder por causa da fatal prevaricação de seus líderes num momento decisivo. Hobsbawm nem mesmo menciona isso. Ele procura por uma razão diferente, mais fácil, mais “objetiva”. É irônico que um livro com essa mensagem seja publicado contra o pano de fundo das revoluções no Oriente Médio e Norte da África! As massas egípcias e tunisianas ignoraram as panaceias de seus ‘Hobsbawms’ ao escolherem derrubar seus ditadores. Nas circunstâncias dadas, elas não podiam tomar outro caminho. As fracas forças burguesas em cada país da região construíram um muro contra todas as tentativas de reformar o sistema, seja de cima ou de baixo.

O pessimismo de Hobsbawm

A conclusão da interpretação de Hobsbawm sobre Gramsci é que a transformação gradual do Estado, a conquista da “sociedade civil” e um tipo de “longa marcha” para a “mudança do mundo” são a única possibilidade para o movimento dos trabalhadores. Essa abordagem reformista, onde foi tentada, da Espanha dos anos 1930 ao Chile dos anos 1970, teve seu pescoço quebrado pela contrarrevolução, que é o método escolhido pela burguesia quando tudo o mais falha. Ela não recorre a tais métodos hoje porque não está sendo seriamente desafiada pelas organizações de massa da classe trabalhadora, que foram ou “blairizadas” ou, como os sindicatos, foram efetivamente neutralizadas até agora por seus líderes covardes e passivos.

Uma das coisas positivas do livro – uma das poucas, deve-se confessar – é a referência que Hobsbawm faz à demanda de Engels pela independência da classe trabalhadora e criação de suas próprias organizações: “Não importa como, desde que seja um partido operário separado”, escreveu Engels. Essa é exatamente a tarefa que o Comitê por uma Internacional dos Trabalhadores se colocou em todo o mundo, a fim de rearmar politicamente a classe trabalhadora nas tempestuosas batalhas que virão. Uma das razões porque isso é necessário hoje, 150 anos depois do chamado de Engels, é porque precisamente as organizações independentes da classe trabalhadora desapareceram nos anos 2000, em parte graças a figuras como Hobsbawm, o teórico dos coveiros do velho Partido Trabalhista como Kinnock.

Gramsci escreveu bastante sobre o papel dos “intelectuais”, lidando primariamente com a questão do ponto de vista do desenvolvimento da consciência, incluindo a consciência dominante ou a ideologia da burguesia. Essa ideia geral, que foi mal interpretada por seus discípulos tardios, é importante. O movimento dos trabalhadores, incluindo os marxistas, deseja influenciar e ganhar os intelectuais, os melhores deles pelo menos, para o seu lado. Por exemplo, é preciso a luta no Estado para ganhar os técnicos, a classe média em geral, e até os gerentes.

Além disso, como mostra a situação atual da Grã-Bretanha, selvagens ataques aos funcionários públicos – incluindo a polícia e as forças armadas – podem radicalizar camadas que nunca se viram como aliadas da classe trabalhadora. Advogados irão protestar contra os cortes em 26 de março. Face aos ataques a seus direitos e condições, eles podem ser ganhos para o lado do movimento dos trabalhadores. Mas isso não será obtido diluindo o programa de luta, solidariedade e socialismo.

Será apenas oferecendo uma nova perspectiva, a ideia de uma mudança na sociedade, que os funcionários públicos, assim como os “trabalhadores intelectuais”, serão atraídos para o movimento dos trabalhadores e, mesmo assim, não só com propaganda, mas com a luta. Isso tem sido mostrado em todos os grandes movimentos sociais vistos na Grã-Bretanha, desde o poll tax à greve dos mineiros etc. Uma situação similar pode se desenvolver agora no movimento contra os cortes nos gastos sociais. Isso é enfatizado pela revolução no Oriente Médio e Norte da África. Aquela parte dos intelectuais e jovens que estão nas universidades e colégios também pode ser atraída para o movimento dos trabalhadores. Um setor significativo pode ser influenciado e ganho para o marxismo. 

Hobsbawm escreve: “Já que a Itália e a maioria do Ocidente não iriam passar por uma revolução de Outubro a partir do início dos anos 1920 – e não havia nenhuma perspectiva realista de uma – [Gramsci] obviamente tinha que considerar uma estratégia para longo prazo”. Hobsbawm admite que Gramsci não se comprometeu com apenas uma estratégia. Ele não descartava um “ataque frontal”, isto é, uma revolução no sentido clássico de Outubro de 1917. Ele temia a “integração” do movimento revolucionário no sistema capitalista. Ele elaborou, à maneira da ideia de Maquiavel exibida em O Príncipe – que, para Gramsci, significava o partido – um programa para a classe trabalhadora estabelecer sua “hegemonia” sobre as outras classes na luta pelo poder. Ironicamente, essa ideia do “hegemonismo” foi interpretado exatamente no sentido oposto ao que Gramsci pretendia. É usado como crítica, em geral por anti-marxistas, contra qualquer tentativa de se estabelecer a primazia da classe trabalhadora e de suas organizações ou dos marxistas de lutarem de maneira política principista para ganhar a maioria das organizações da classe trabalhadora.

Em suma, apesar do título do livro, Hobsbawm é pessimista sobre como mudar o mundo. Certamente, o ponto de partida hoje seria como enfrentar a devastadora crise econômica que aflige todo o mundo, a mais profunda desde os anos 1930? Um indicativo disso é que, segundo o Fundo Monetário Internacional, o capitalismo mundial perdeu um total de 50 trilhões de dólares em 2008-10, com a perda de produção e desvalorização dos ativos – igual à produção total mundial em bens e serviços de um ano! Mas Hobsbawm comenta: “Os socialistas, tradicionais pensadores do movimento dos trabalhadores, não sabem mais do que qualquer um como superar a crise atual. Diferente dos anos 1930, eles não podem apontar nenhum exemplo de regimes comunistas ou socialdemocratas imunes à crise, nem têm propostas realistas para a mudança socialista”. 

O colapso de seus antigos ídolos, os regimes stalinistas do Leste Europeu e Rússia, significa para ele que não há atração em defender a alternativa socialista. Contudo, antes da Revolução Russa e a criação da União Soviética, os socialistas defendiam, e muito eficientemente, a mudança socialista – sem ter um modelo preparado. Sem essa luta ao longo de gerações, o movimento dos trabalhadores não teria sido construído e o fator subjetivo necessário para a revolução e a mudança social estaria ausente. Houve muitos períodos de desilusão, porque as economias capitalistas pareciam estar “fazendo o serviço” – por exemplo, entre 1896 e 1914. Então, reformistas como Bernstein na Alemanha, Millerand na França e MacDonald na Grã-Bretanha procuraram reconciliar o movimento operário com uma “marcha ao socialismo” centímetro por centímetro. A 1ª Guerra Mundial, que significou o impasse absoluto das forças produtivas sob o capitalismo, enterrou essas ideias, embora seus defensores não fossem completamente derrotados dentro do movimento operário.

É verdade que a criação de um Estado operário na Rússia foi sucedida pelo terrível fato histórico do stalinismo. Isso é um obstáculo para que os trabalhadores facilmente tirem conclusões socialistas hoje. O stalinismo agiu como uma mancha sobre a história e a reputação do movimento dos trabalhadores, introduzindo complicações que não existiam antes da 1ª Guerra Mundial e da Revolução Russa. Mas o único modo de superar essa “contradição” é ter um balanço honesto e sério de porque a revolução na Rússia degenerou e como isso pode ser evitado no futuro. Hobsbawm é incapaz de fazer isso por causa das incômodas vestes políticas do passado a que ele ainda se agarra, aos restos do distorcido “marxismo” que não digeriu bem o fenômeno do stalinismo.

Em novembro o “Como mudar o mundo” será lançado em português pela Companhia das Letras. 

Peter Taaffe, secretário geral do Partido Socialista (CIT Inglaterra e País de Gales) – 26 de agosto de 2011

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