É ou não é falta de respeito à educação?

Por Elias Lopes

Um jornaleco de Rio das Ostras (RJ) chamado Diário Riostrense, na verdade um meio de providenciar os recados das elites e autoridades desta municipalidade que elas mesmas não se sentem à vontade de veicular, seja por suspeita, falta de legitimidade e até por constrangimento, publicou um artigo intitulado “Falando francamente – é ou não é falta de respeito e educação?” para criticar o Grito dos Excluídos, ocorrido pela primeira vez nesta cidade no feriado de 7 de setembro. Aproprio-me aqui do título para parafraseá-lo perguntando: é ou não é falta de respeito à educação? O texto em si é desmerecedor de qualquer comentário à parte, a não ser pelo aproveitamento parcial do título. Se o faço é pelo entusiasmo inspirado por aquele episódio único na história de Rio das Ostras e pelo fato daquele texto ser uma das primeiras reações ao ato. Seus comentários, de tão piegas em seus clichês apelativos e conservadores, chegam a ser cômico.

Constatem por si mesmo o teor risível de um de seus parágrafos:
“O que esse grupo conseguiu, além de demonstrar sua falta de respeito e de educação? Conseguiram fazer com que as crianças que vinham a desfilar ainda não tivessem a oportunidade de serem vistas e aplaudidas, além de admiradas, por aqueles que decidem os destinos da cidade. Conseguiram que seus pais e mães não tivessem a oportunidade de verem seus filhos recebendo um aplauso ou um cumprimento do prefeito. Talvez, para esse grupo barulhento e deseducado, isto não tenha importância, mas para muitos munícipes humildes, trabalhadores que têm poucas oportunidades de terem algum tipo de reconhecimento na vida um simples aperto de mão ou um aplauso para seu filho ou sua filha que ali desfila é muito. É para ser lembrado por toda uma vida”.
Reparem que o autor não consegue sustentar uma argumentação sequer sem apelar para um discurso lacônico e vitimizador das crianças, dos nossos filhos, da população humilde, como se aquela manifestação não tivesse contado com a adesão dos nossos filhos e alunos bem como muitos munícipes humildes que não aceitam mais abaixar a cabeça e ser reconhecidos apenas por um tapinha no ombro ou aperto de mão das autoridades. Se não há de fato oportunidades para essas pessoas é porque em grande parte essas oportunidades são trocadas pelo assistencialismo, pelo favorzinho, pelo aliciamento providenciado pelos mesmos que se limitam a dar-lhes um aperto de mão, achando que ainda estão fazendo muito por garantir-lhes pelo menos uma “lembrança na vida”. Essas pessoas não querem tão somente ter essa mísera “lembrança na vida” e por isso lá estavam para se afirmarem como agentes de seu próprio devir. Elas não querem mais ser vitimizadas.
Esses garotos de recados não escrevem que o servidor público também participou do protesto, sobretudo os professores que estavam presentes na manifestação mas que o autor do artigo por algum motivo “esquece” de mencionar. Não! Definitivamente não pegaria bem qualificar tão “prestigiados” profissionais com os adjetivos utilizados no texto, digo, recado: juvenilidade, deseducados, desrespeitosos. Afinal estariam todos supostamente felizes e satisfeitos com o tão esperado plano de carreira – ou seria inesperado, já que saiu na surdina, aprovado em sessão extraordinária na câmara dos vereadores? Deixemos, por enquanto, que tais achincalhamentos se restrinjam aos ambientes de trabalho ou mesmo, pasmem, a uma concentração para um desfile cívico, e não a cargo de um veículo de comunicação de massa, mesmo que este assuma o caráter bajulador de um pueril meio de levar um recadinho aqui, dissimular uma contradição ali; embora esteja cada vez mais difícil ocultá-las, porém menos por incompetência dos manipuladores da opinião (não que sejam lá grande coisa e este jornaleco é um exemplo banal disso) do que das evidências concretas dessas contradições.
De todo modo, não soaria bem se os seus leitores chegassem às “suas próprias conclusões pessoais”, como o próprio recado menciona, que estes trabalhadores estão insatisfeitos uma vez que ele “é tão valorizado” (sic). Como poderia, imaginaria um leitor ao tirar suas própria conclusões (que na cabeça desses leva-e-traz tem que ser necessariamente “pessoais”, pois lhes é inconcebível o horizonte da construção social, que as pessoas possam se unir em torno de um projeto de sociedade comum e mais solidário), este servidor estar descontente de vez que ele acabara de ser “presenteado” com um plano de cargos e salários? Arremedo de plano de carreira este que, na verdade, é um instrumento normatizador ou, antes, disciplinador, para dar uma base de sustentação legal às práticas corriqueiras de desmandos e abusos desta administração para com o servidor público.
Esses garotos de recados não incluem em suas linhas mal redigidas que o servidor público que não se deixa aliciar ou cooptar vem sendo constantemente ameaçado, constrangido, intimidado, qual foi o caso da ameaça sofrida por uma servidora para que a mesma não manifestasse sua insatisfação no ato sob pena de perseguição a um familiar contratado. Ou ainda, não esclarecem à população sobre as ameaças de suspensão que algumas crianças e alunos sofreram por se mostrarem dispostos a acompanhar seus professores no protesto em prol de uma educação pública de qualidade, com real valorização do profissional da educação. Pergunto-me se o nosso leva-e-traz estaria se referindo a essas mesmas crianças no trecho destacado acima ou seriam crianças menos arredias, mais coradinhas e fofinhas, ávidas pelos aplausos e cumprimentos do prefeito? Também não divulgam a perseguição sofrida por nosso colega Gilberlan Souza, que teve uma cessão de Macaé – que lhe permitia exercer um ótimo trabalho como professor orientador cujo desempenho era reconhecido por todos, inclusive alguns dos mais suspeitos, dentro e fora da escola – revogada por motivo fútil, caracterizando assédio moral e perseguição por simplesmente ter se posicionado contrário a uma normatização que violenta a si mesmo, que penaliza o trabalhador em sala de aula enquanto favorece os cargos comissionados.
A propósito, diga-se de passagem que esta lógica vai ao encontro da concepção da secretaria de educação de Rio das Ostras dos princípios que norteiam o profissional de educação: a) o professor é sempre um desqualificado, aquém das suas atribuições, desprovido de discernimento acerca do seu próprio papel na sociedade e para todos os efeitos um ser abjeto – isto ficou claro por ocasião das palestras oferecidas no ano passado aos professores recém concursados quando lhes era dirigido muito mais um tom de exortação do que de acolhimento e receptividade; b) o professor e demais profissionais da educação que eventualmente se destacam (embora o seja menos por competência do que por uma inclinação para se deixar cooptar) e conseguem superar este suposto estado de inépcia são “merecedores” de sair das salas de aula, isto é, de serem premiados com cargos comissionados ou com horas extras que nunca são cumpridas na prática por aquele que não possui cargo comissionado, mas que desde já é um aspirante a tal posição, justificando-se tão somente como instrumento aliciador ao pacto de mediocridade predominante, logo, estaria este profissional sujeito a, por fim, se “beneficiar” do plano de carreira.
Portanto, quem tem cargo comissionado, permuta, cessão, contrato, está fora de função, principalmente fora de sala de aula etc. é presa fácil deste mecanismo de cooptação, que se dá na maior parte dos casos ao sabor da conveniência, já que este ideal de promoção torna-se tão consensual quanto mais influente. Qualquer sinal de insubordinação e este profissional estaria passível de punição, ou seja, de voltar para a sala de aula. Quanto ao professor que já está em sala de aula, uma vez que demonstre qualquer discordância com a ordem estabelecida, não tem lá muito como ser “punido” senão ser remanejado para as localidades mais ermas e de difícil acesso. Em todo caso, garantiria-se os meios para que se perpetue nesta condição (a de atuar em sala de aula) que para muitos é o pior cenário imaginável, sendo atribuição dos gestores plantarem-lhe o medo e o receio através de uma disciplinarização intimidadora e coercitiva que atinge o seu grau de sofisticação mais elevado com o atual endosso de um embasamento normativo que subscreve este plano de carreira. Esta é a acepção de promoção que este plano contempla. Só assim se explica o caráter anacrônico do plano de carreira proposto por esta gestão.
Confesso que me deixei levar pela indignação diante dos fatos perdendo o rumo da prosa dada a pouca importância da alegada franqueza do redator do Diário Riostrense. Mas também não há muito a dizer daqueles recadinhos que não se desdigam por si mesmos. Recuso-me, por exemplo, a tecer maiores comentários acerca da frase “(…) por aqueles que decidem os destinos da cidade”, já que ela se desqualifica por si mesma senão ao próprio autor. Onde arrumam esses caras hein? Não posso chamá-los de cínicos e hipócritas porque seria como elogiá-los. Convenhamos, para sê-lo é necessário mais elegância. Mas não posso evitar destacar sua pretensão em tentar induzir uma opinião, por mais débil que esta seja.
Fica claro porque a educação não é valorizada, como de outro modo se propagandeia neste município, já que do contrário o futuro trabalhador consciente de seus direitos e deveres não se iludiria com algumas migalhas em troca de um plano de carreira que garanta de fato o seu bem estar e da sua família, porquanto os benefícios anunciados neste rudimento de plano, ora objeto de polêmicas, não contemplam uma eventual licença e a merecida aposentadoria após toda uma vida de trabalho. Assim como também não se deixaria seduzir por qualquer meio de cooptação, como é o caso da já aludida hora extra, que, se por um lado, parece complementar o orçamento familiar, por outro, esvazia a dignidade, ainda que menos por não ser cumprida factualmente do que por consistir numa moeda de troca da cumplicidade e da escalada na cadeia hierárquica do poder burocratizado.
Enquanto aos “munícipes humildes”, uma vez que tenham acesso à educação de qualidade, não se contentariam com as “poucas oportunidades”, com meros “apertos de mão” ou certas “conclusões pessoais” a partir de recados mal-disfarçados de artigos de jornalecos provincianos. A despeito da presunção deste tipo de mídia, se é que se pode chamá-lo assim, não foi desta vez que foi dado o “recado”.
Segue abaixo o link do “recado” supracitado.
http://diarioriostrense.blogspot.com/2011/09/falando-francamente-e-ou-nao-e-falta-de.html

Elias Lopes de Lima é professor de Geografia da rede municipal de ensino de Rio das Ostras – RJ

 
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