O Grito dos Excluídos

Por  Matheus Thomaz

Eu vou à luta
É com essa juventude
Que não corre da raia
À troco de nada
Eu vou no bloco
Dessa mocidade
Que não tá na saudade
E constrói
A manhã desejada..

Nos versos de Gonzaguinha me inspiro para comentar o grito dos excluídos no último 07 de Setembro em Rio das Ostras. O dia anterior ao ato de protesto já dava alguns prenúncios do que estava para acontecer. Ali na Praça José Pereira Câmara eram preparados os cartazes, faixas e também o espírito combativo de uma juventude que escolheu não ser alienada e construir um futuro diferente e melhor. Cerca de 40 jovens, sindicalistas, professores, servidores municipais e um tanto assim de transeuntes que se juntavam a nós no momento em que era explicado o que significava aquela cena inusitada bem no centro de Rio das Ostras.

Mas nem em nossos sonhos mais otimistas pensávamos que iríamos conseguir o resultado alcançado, o efeito que causamos nesta cidade. O circo estava todo armado para a exaltação de uma realidade laranja feliz, tinha até cartazes elogios à gestão municipal. Foi a primeira vez que vi faixas apócrifas de elogios, vai ver quem fez tinha vergonha de aparecer em público elogiando o trabalho da prefeitura. Algum admirador secreto. Com o tudo armado o Staff municipal se preparava para mais uma atividade Panis et Circensis, só faltou combinar com a população.

Na bonita manhã de quarta-feira muitos estudantes e professores estavam a postos para desfilar. E lá estava uma multidão vestida de preto, em luto pelo descaso municipal com a educação e a perseguição que sofrem os servidores. Juntos somos fortes, provamos isso lá na rua, os estudantes, os servidores municipais, os representantes do SINDSERV, os professores da UFF, os companheiros do MST e as mães de alunos que se juntavam e apoiavam o ato.  

Ficamos um bom tempo negociando com a guarda, apelando para o bom senso dizendo que era impossível ignorar aquela quantidade de pessoas dispostas ao protesto.  Mas a insensibilidade e soberba dos governantes e em tentar sufocar a manifestação criava um grande impasse.

E foi assim que aquela juventude decidiu enfrentar a situação. Numa ação rápida, inteligente e precisa foi dado, como na gíria do futebol, o drible da vaca no autoritarismo. Chegamos à rua e ficamos em forma para desfilar. Usando a reflexão do Cel. Nascimento no filme Tropa de Elite 2, no sistema, você se omite, se corrompe ou declara guerra. E ali ficamos frente a frente com um cordão de isolamento formado pela Guarda Municipal. Aproveito para dar os parabéns pelos servidores da guarda, que visivelmente se expuseram àquela situação por serem obrigados a cumprir ordens. Discretamente foram surgindo gestos de apoio à nossa coragem e atitude, mesmo ali naquela barreira humana construída pela arrogância real. Já era tarde o Rei estava nu!

Nos momentos de tensão que antecederam nosso desfile aconteceram cenas inusitadas, tinha uma fotógrafa conhecida da cidade que circulava com sua máquina em punho e aparentava estar atordoada com os acontecimentos, tinha um olhar perdido. Foi abordada por um servidor municipal que carregava um cartaz com uma lista de nomes de servidores que são perseguidos e sofrem assédio moral do secretário de meio ambiente, ele lhe dirigiu a palavra: “tira umas fotos, olha quantos servidores perseguidos na SEMAP.” Ela respondeu: “Por favor, não me compromete..” ele, insistiu: “está vendo essas pessoas são seus leitores” apontando para os manifestantes e para as pessoas nas arquibancadas que aplaudiam nossa ousadia. Ela tirou as fotos, mas teremos que esperar alguns dias para saber o que é mais importante, um fato que vai marcar a cidade por um bom tempo ou a soberba dos que fingem não ver que algo está acontecendo nesta cidade.

E assim desfilamos, foi literalmente no grito. O Rei decretou o fim do desfile, antes mesmo que todos os participantes desfilassem. Como a patuléia não estava ali para aplaudir, decidiu terminar tudo e ir embora. Ainda acha que tem o poder de decretar o fim das manifestações, das expressões, saudosos da Ditadura. A comitiva real, seguida por seus duques caducos e também alguns bobos, sem eles a corte não estaria completa, saiu pela porta dos fundos sob vaias enquanto a população aplaudia nosso desfile.

Foi lindo, tudo que aconteceu, foi comovente. Eu confesso que senti a mesma chama que acendeu lá nos meus vinte e poucos anos quando entrei no Movimento Estudantil e passei a acreditar que era possível mudar o mundo e que posso ser agente dessa transformação. Esse sentimento contagiava a todos ali, via-se nas pessoas que aplaudiam certo sorriso de alma lavada, de satisfação de ver o prefeito fugindo acuado pela manifestação popular.

Como disse um companheiro professor presente ao ato: “A luta de classes chegou a Rio das Ostras”. Que ela seja bem vinda e sirva para despertar novas consciências de que é preciso transformar a realidade e que a luta é o caminho.

Matheus Thomaz é assistente social e militante do PSOL SERRAMAR

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