Arquivo do mês: novembro 2011

Copa do Mundo: demagogia e tráfico de mulheres

Por Hugo R C Souza   

A Federação Internacional de Futebol, a Fifa, é uma entidade sem fins lucrativos. Não tem acionistas, e portanto não paga dividendos a eles. Não está cotada em bolsa de valores, não tem valor de mercado. Tudo o que arrecada, e não é pouco, a Fifa diz investir na “promoção do futebol” ao redor do mundo, e é verdade. O que esta todo-poderosa organização não faz questão de cornetear por aí é que isto de “promoção do futebol” na verdade se trata do fomento das condições para que uma dúzia de transnacionais gigantes, com negócios ligados ao esporte mais popular do planeta, multipliquem seus lucros.

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Sendo assim, na condição de delegada dos interesses de empresas do porte da fabricante de materiais esportivos Adidas, da Coca-Cola e da empresa de cartões de crédito Visa, a Fifa desfila pelo mundo na condição, digamos, de “dono da bola”, aquele que na gíria da meninada dita as regras da “pelada” no campinho de terra.

Sobretudo em épocas de Copa do Mundo, A Fifa tira do bolso a procuração do poder econômico que a financia e enumera uma série de exigências aos países-sede, que já ficam previamente avisados de que podem ter que construir isso, demolir aquilo, providenciar aquilo outro, e até mesmo requisitar a criação ou a abolição de leis.

Exemplo crasso foi a pressão da Fifa para que a gerência de Jacob Zuma descriminalizasse a prostituição no país durante a Copa, passando o recado das grandes agências de turismo da Europa e do USA, cujos clientes se mostraram receosos em viajar para alugar corpos femininos infectados com o vírus da AIDS (6 milhões dos 48 milhões de sul-africanos sofrem da síndrome da imunodeficiência adquirida). O jornal britânico The Guardian abraçou a causa da Fifa e chegou a pedir a regulação do “mercado sexual” na África do Sul durante o mundial de futebol, a fim de minimizar o risco de os turistas da metrópole contraírem o vírus HIV. Continuar lendo

Especialista avalia caso Chevron e diz que lei ambiental é frouxa

Para Ildo Sauer, desastre da Chevron levanta questões sobre os contratos com petrolíferas estrangeiras no Brasil

Por Alexandre Bazzan

Chevron-Ildo intO vazamento de petróleo causado pela empresa estadunidense Chevron teve início no dia 8 de novembro. A morosidade e nebulosidade das informações passadas levantaram questões referentes ao empenho da empresa em sanar o problema. Os equipamentos usados para “matar” o poço (termo usado para descrever o fechamento de um poço) estavam nos Estados Unidos e demoraram 13 dias para chegar ao local. Além disso, existem suspeitas de que a empresa tenha omitido e adulterado informações à Agência Nacional de Petróleo, ANP, para minimizar o caso. Continuar lendo

Entrevista: bióloga Mônica Lima alerta que a TKCSA sempre poluirá

Uma das especialistas do grupo multidisciplinar que acompanha o impacto ambiental da TKCSA na região de Santa Cruz, Mônica Lima afirma que a emissão de material particulado é diária e já provoca doenças graves como disfunção renal. A biológa de Uerj está sendo processada pela TKCSA – um consórcio que reúne a empresa alemã ThyssenKrupp e a Vale – porque vem denunciando como a poluição atmosférica causada pela siderúrgica está associada a doenças agudas e crônicas. Em entrevista ao mandato Eliomar Coelho, Mônica disse que a empresa deveria, de imediato, ter usado o mesmo filtro que usa na Alemanha mas isso dobraria os gastos com a construção. Mônica também atua no grupo de trabalho – formado pelo secretário estadual de Meio Ambiente, Carlos Minc –  responsável por levantar subsídios que definirão futuras indenizações.

Por que você está sendo processada pela CSA?

Por que venho dizendo a verdade e desejo proteger os atingidos, já que meu compromisso é com a sociedade e não com empresas e governos. A empresa age com má fé para me intimidar e ameaçar, pois venho associando a poluição atmosférica da TKCSA, ou seja, o particulado e os gases tóxicos com doenças agudas, ou seja, as doenças imediatas, como os casos de alergias dermatológicas, respiratórias e oftalmológicas (asma, bronquite, rinite, conjuntivite, coceiras na pele com e sem sangramentos) e as doenças crônicas futuras, como câncer, casos de aborto espontâneo e doenças neurológicas. Mas algumas doenças crônicas já estão ocorrendo, como é o caso de um menino que apresentou síndrome nefrótica, que é uma grave disfunção renal provocada pelas altas concentrações no sangue da toxina da bactéria que se replica durante a infecção de pele ocasionada pelo pó-brilhoso da CSA. E ainda dizem que é só grafite e é inofensivo. Mais especificamente, estão me processando devido a uma entrevista no portal da Portogente  e duas falas que fiz na Alerj durante as audiências da comissão de investigação. Dizem que estou alarmando a população sem ser médica. Porém, sou profissional de saúde e estou me baseando em estudos nacionais e internacionais que tratam de doenças provenientes do vazamento de siderúrgicas.

A Fiocruz fez um estudo sobre o nível de poluição do ar causado pela CSA na região de Santa Cruz. O que foi constatado?

Que o particulado, o pó-brilhoso, não é só grafite, possui uma série de outros metais (exemplo: cálcio, manganês, silício, enxofre, alumínio, zinco, magnésio, estanho, cadmio, titânio, dentre outros) que podem ser tóxicos e nocivos em altas concentrações e também devido ao efeito cumulativo ou sinérgico, e que o nível de ferro aumentou mais que 1000% no ar. Outros problemas de saúde podem ser agravados devido ao particulado fino, que pode carrear além de metais, substâncias tóxicas que afetam a saúde humana, como hidrocarbonetos poliaromáticos. Verificou-se também que os picos nas medições de particulados estão bem acima do nível considerado aceitável pela nossa legislação e pela OMS. O Inea e a empresa fazem uma média que acaba diluindo os picos e mascarando o resultado. O relatório também possui a avaliação clínica de indivíduos moradores do entorno da usina e diagnostica alguns indivíduos com CID10-F43, uma síndrome de inadaptação gerada por estresse grave e transtorno de adaptação devido a presença da empresa e a má qualidade de vida gerada, fazendo o nexo causal com a TKCSA. Também verificou-se muitos eventos de asma, sinusite, tosse com início ou piora após a exposição à poeira da CSA, e pruridos na pele e couro cabeludo devido o pó prateado.

Que danos a poluição causa à população vizinha? Que danos pode causar ao ecossistema da região?

Além dos impactos nocivos à saúde, com o aparecimento e agravamento de doenças, os impactos socioambientais, sanitários e ao ecossistema mais prováveis que já estão ocorrendo são a poluição hídrica e atmosférica, a destruição de 10 mil hectares de manguezal com animais em extinção como o peixe-boi, deslocamento compulsório de 14 mil pessoas, exacerbação da violência urbana com aparecimento inclusive de prostituição, e saturação de serviços que já são precários na região, como os da área da saúde. O fechamento do Hospital Pedro II é um dos piores agravantes neste momento de caos que atribuo ao governo do estado.

Desde que entrou em operação, em 2010, a CSA já provocou dois graves acidentes e foi novamente multada, este ano, por poluição com fuligem. Acredita que a empresa ThyssenKrupp utiliza os mesmos padrões de segurança empregados na Alemanha?

Não, e na Alemanha esse projeto nunca seria instalado. Desde a época do Rima, os profissionais da Fiocruz e da RBJA (Rede Brasileira de Justiça Ambiental) já apontaram para o duplo padrão e vulnerabilidade das nossas instituições reguladoras e fiscalizadoras. No Rima também houve ausência de análise dos efeitos cumulativos e sinérgicos devido aos passivos ambientais que a região já possuía, como os deixados pela Ingá Mercantil, pela siderúrgica Gerdau e as indústrias e fábricas já existentes na região. E o que agravou absurdamente a poluição e a emissão de particulados foi o fato de o governador Sérgio Cabral ter autorizado o funcionamento do segundo alto-forno baseado em um laudo limitado tecnicamente e emitido por uma empresa privada e estrangeira. Esclareço que tais “acidentes” ocorrem diariamente, o que difere é a quantidade de particulado emitido.

Por determinação do Ministério Público Federal e do Inea, a CSA terá que fazer uma auditoria externa. Na sua opinião, esse procedimento pode resultar na proibição de concessão da licença definitiva de operação por parte do Inea? Qual sua avaliação sobre a atuação do Inea?

Acho pouco provável, pois é um projeto imperialista e hegemônico (do capital internacional), mas tudo pode acontecer e vai depender do movimento e da pressão social. O estado e o governo são ausentes, aplicam multas que não resolvem a situação efetivamente, e a empresa ainda usa o dinheiro da multa para se promover. É o empresariamento da região, onde a sociedade se torna refém da empresa com seus projetos compensatórios e de “responsabilidade social”. A primeira auditoria que esta empresa procurou fazer foi com a Usiminas, onde havia conflito de interesses, caracterizando mais uma vez sua má fé. Técnicos da Usiminas também estão respondendo a processos criminais, assim como diretores da TKCSA, por omitirem informações e por crimes ambientais, respectivamente.

Para receber a licença, o Inea exige que a CSA adeque suas operações às determinações ambientais. Os moradores e pescadores de Sepetiba são contra a licença definitiva. Na sua opinião, a CSA tem condições de operar sem causar danos à população vizinha e ao ambiente? 

Não, pois vem funcionando há mais de um ano se utilizando de um procedimento que deveria ser de emergência, portanto, a empresa, de imediato, deveria ter usado o mesmo filtro que usa na Alemanha. Mas isso exigiria gastos comparados à construção de uma nova siderúrgica. O tipo de solo também não é compatível com o empreendimento e cederá sempre. Ou seja, são incompetentes e não valorizam a vida, valorizam o “futuro do aço” como divulgado emoutdoors da empresa na região. E mesmo que funcione com um excelente padrão é um empreendimento polêmico que sempre poluirá. É a política da luta de classe, onde impera o racismo ambiental e o território de exceção.

Fonte: Blogue do Eliomar Coelho