Senta igual uma mocinha

Por Anna de Castro

“Você precisar ser mocinha! Fecha as pernas! Não coloca isso aí! Precisa se arrumar mais! Quem vai querer uma namorada assim? Tá igual seu irmão! Precisa se valorizar. Precisa esperar o homem ideal! Precisa esperar o momento ideal! Os homens fazem sexo as mulheres fazem amor. Passado de mulher e cozinha de restaurante… Vai ficar rodada (falada). Tá agindo igual uma piranha. Mulher é de um homem só. Boceta é um negócio feio! É natural de a mulher querer menos sexo. A mulher prefere fazer amor. O homem da minha vida. Não sou suas negas! Não sou dessas! Tá achando que sou alguma piranha?”

Tanta coisa a gente ouve tanta coisa a gente diz…

Para início de conversa, esse texto não é intencionalmente feminista e não vai ter linha teórica e palavras complicadas. É escrito de uma mulher qualquer para outras mulheres “qualqueres”. É só um desabafo para o que esses olhos observam e esse coração se inquieta e ofende através do ouvido. O texto é isso uma questão de sentido sobre como nós, mulheres e homens, somos oprimidos sexualmente das formas mais bem intencionadas e singelas.

Só o fato de um bebê ser mulher já inclui comentários sobre os perigos que os pais irão sofrer: uma menina custa mais caro; o pai irá lidar com os namorados, etc. Esses são os recados da sociedade para que aquele casal cumpra o papel de, logo de início, envolver a criança nesse sistema de opressões. É delegado aos dois a tarefa de passar a vida inteira sendo os guardiões da hipocrisia, da castidade, da moralidade e do puritanismo. Eles cumprirão esta função e, conseqüentemente, serão a condenação e a culpa que as mulheres carregam pelo resto da vida de não serem castas e de se sentirem usadas.

Nasce a garotinha, fura-se a orelha, veste-se de rosa sua imagem – está declarada nesse momento com o simbólico da fragilidade. Os nossos banhos são dados pela mãe, avó, prima, tia e qualquer mulher! Nosso pai é afastado nesse sentido e qualquer colo masculino numa família mais tradicional já é decretado como impróprio. Medo de alguma violência talvez. Mas também considero que aqui o homem ganha um papel animalesco e talvez esse seja o motivo de tantos ainda violentarem as crianças dentro da família. Eles não foram educados para serem responsáveis, amáveis, cuidar das crianças com a totalidade da criação. Não foram expostos a ter o olhar não vinculado ao sexo. O mundo do afago para homens consegue, nesse sentido, ser mais distante e oprimido ao da mulher: geramos doenças e violência por isso.

A sociedade cria os homens para serem os machos opressores e violentos.

Nesse exato momento que escrevo o texto no notebook acabei de escutar a vizinha com apenas 9 anos atendendo, à clara luz da manhã, pessoas em casa. Ela do lado de dentro do portão, um homem que entregaria uma encomenda a seu pai. Ele deixou um embrulho e ela se comportou como uma “moça”! E mesmo assim, surge uma mulher mais velha preocupadíssima que a criança atendeu o portão com o amigo do pai à porta. Exemplo prático de como é demonstrado como perigosa qualquer aproximação com um homem. E seguem os sermões com a criança.

Então começam nossas primeiras brincadeiras: ainda bem pequena a mão que não sossega de quando encontra a boceta (prefiro usar esse termo porque me é mais familiar e confortável). É o momento em que os meninos arrancam risos da família mostrando que são machos e nós descobrimos que temos uma vergonha! Dizem pra gente esconder; não mexer! Os mais modernos dizem que pode machucar! Os ultramodernos avisam que a mão está suja. Mas não existe ninguém perguntando se nós queremos entrar no banho pra ficar brincando e descobrir o que tem lá. Ninguém trata como se fosse qualquer outra parte do corpo. O órgão feminino já é omitido quando nos ensinam a falar os nomes: Onde ficam os olhos? Nós aprendemos! Assim como pernas, ouvidos, nariz, boca, pé, dedos, barriga. Os peitos e a “perereca” sumiram e ninguém diz “Achoooou!!!”.

Devem ter achado feio e incorreto porque eu designei o termo perereca. Mas diferente do que se ouve por ai acho que apelidos são sempre bem vindos e todas as partes do corpo tem. Então se não for servir de subterfúgio para não dizer os nomes reais por vergonha é bem vindo trazer um ambiente carinhoso e lúdico com o contato com o corpo logo de início.

Como estava contando… já esconderam as nossas “vergonhas”, agora fazem questão de que tenhamos autonomia na vigilância. Ouve-se incansavelmente o “fecha as pernas!”. Gostaria de saber porque diabos (além de servir como tortura) se veste uma menina de saia e pede que a criança mantenha a perna fechada para não mostrar a calcinha. Pronto! Está reforçada a vergonha que teremos futuramente em nos mostrar, encontrar, despir e gozar. Isso já está estabelecido quando ainda não aprendemos a ler.

Agora vêm as brincadeiras de criança! Os mundos divididos em brincadeira de menino e brincadeiras de menina. São reforçadas as tendências esperadas dos grupos sociais: os trabalhos mais pesados e físicos para o homem e as atividades mais quietas e sensíveis para as meninas. Então incluem que nós iremos brincar de boneca; fazer comidinha; escolinha; ser enfermeira; ter uma boneca arrumadinha; princesa-modelo que encontra o namorado. Também existe a falta de brinquedos mais intelectuais e livros. Ficamos sem os livros de aventura e os Legos, sem brinquedos de madeira e os robóticos. Alguns pensarão que isso já está mudando ou é passado, mas é tão evidente no meu convívio (de classe social mais baixa) que achei pertinente citar. Até porque, mesmo os presentes servem para enraizar a ideologia que serão as meninas mais pobres que ainda terão que trabalhar cuidando dos filhos delas e das outras da própria comunidade; de classe média que não possuirão disponibilidade.

Com tanta opressão e ao mesmo tempo tanta projeção para o comportamento ideal diante da avaliação de um homem é compreensível que nossa sexualidade exploda durante a adolescência e que nós só pensemos em amores, paixões, descobertas… porque mesmo que ainda escondidos esse é o momento mais propício. Talvez se desde sempre fossemos consideradas um processo contínuo e natural nós não seríamos tão incisivas e também não supervalorizaríamos as relações. A adolescência é um período muito forte para a mulher já que existem a vontade biológica e a pressão social ideológica que foi construída pelo amor romantizado. E nessa fase tudo isto acaba se somando, causando as maiores desilusões e mais sofridas na mulher.

Somos exageradamente sentimentais. Ainda não classificamos os tipos de relação; ainda queremos que as primeiras relações sejam capazes de, por si, mostrarem um valor superior, sobre os valores esperados pela família. Esperamos que o menino cumpra papel de protetor e honroso sobre a importância da nossa virgindade e mostre como ela deve ser enaltecida por eles. – Disseram-nos que nossa importância estava medida ali,  como um produto tem seu lacre, como um objeto que foi violado e usado e agora não tem valor de compra. – Esse é o momento que somos perdidas dentro de nós mesmas, que o mundo real não é coerente com os ensinamentos, que a nossa natureza se sobrepõe à hipocrisia social humana. Perdidas para a família, perdidas dentro de nós!

Durante a juventude culpamos os homens por nos usar. Toda relação será uma possibilidade de estabelecer vínculo profundo pleno e longo e mesmo que esse homem não seja interessante para um relacionamento. Mesmo que não haja um prazer real é dada a ele essa importância. Não existe ainda um conhecimento filtro e uma classificação sobre isso propriamente nossa. É o momento de sofrer com as amigas, de correr atrás, de brincar de gato e rato com os rapazes. Nas conversas entre amigas os relatos auxiliam nas descobertas mínimas feitas. Ficam expostas as opressões, medos conscientes e talvez expostos para estabelecer para amiga que você é pura ainda que no medo. Mas, merecidamente na realidade, eles são ignorados e resta às amigas a defesa da nossa “fragilidade” “expectativas” ou o julgamento torto e perverso sobre a outra como fazemos internamente com nós mesmas.

Os rapazes tiveram uma liberdade maior com relação à sexualidade conjuntamente com a supervalorização da sua virilidade lutam para acumular experiências em números e cumprem o papel por não estabelecer vínculos profundos. Também é cobrado a ele o papel de macho e reprodutor. O número de mulheres se torna algo importantíssimo na sua apresentação como homem. Mesmo que não seja estabelecida uma intimidade necessária para o maior desenvolvimento e técnica para percepção dos prazeres do próprio corpo e da parceira.

Com o tempo as coisas são melhores dosadas para algumas mulheres. Os casos com homens socialmente-não-adequados são escondidos e as relações duradouras e ideais apresentadas – essas ainda tem um caráter revolucionário à medida que já conhecem seu próprio prazer e sabem que, mesmo que a sociedade cobre um “status”, Tesão é algo independente nisso. Existirão mulheres que reinventarão a própria pureza e castidade se glorificando dos poucos homens que tiveram e os relacionamentos profundos ou se vitimizando cotidianamente. Outras terão uma postura radical a acumularão parceiros, mas essas, socialmente, não são aceitas; internamente já percebi algumas demonstrando que o exagero é decorrente de uma autopunição, autoflagelo. Outras podem ter vários parceiros por prazer, mas ainda restará o gosto cruel e amargo de não ser o tipo ideal de mulher que consegue se reprimir. Em certo momento poderemos ser qualquer uma dessas ou uma mistura de várias.

Tudo que eu disse aqui é superficial generalizado e pessoal. A questão é bem mais profunda e fundamentada, mas é um tipo de pensamento que não pode ficar perdido dentro de nós. Senão o tempo corre e poderemos futuramente ter conivência e reproduzir essas opressões ou pior deixá-las dominarem dentro de nós.

 Anna de Castro é professora e estudante de Direito da UFF.

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