Arquivo do mês: março 2012

Dirigente sindical demitido pela AmBev – Jacareí por denunciar morte de trabalhador dentro da empresa

Chamado por solidariedade e pressão sobre a empresa para reverter mais esse ataque

No dia 12 de março, a empresa AmBev de Jacareí (SP) demitiu por “justa causa” o companheiro Joaquim Aristeu, mais conhecido por seus companheiros de fábrica como “Boca”.

A razão alegada pela empresa foi o fato de Joaquim ter publicado na página da CSP-Conlutas na internet e nas redes sociais um artigo em seu nome pessoal denunciando a responsabilidade da empresa no acidente dentro da fábrica que acabou provocando a morte de um trabalhador terceirizado, um jovem de 25 anos de idade que tinha sua esposa grávida.

Joaquim exerceu um direito básico de livre expressão e também cumpriu seu dever como dirigente sindical e membro da CIPA (Comissão Interna de Prevenção de Acidentes), num momento em que outros cipeiros vacilaram diante das pressões da empresa. Mas, para os patrões, Joaquim estaria “maculando o nome da companhia” e poderia ser sumariamente demitido sem direitos. Ao invés de investir na segurança dos trabalhadores, já que esse acidente foi o mais grave de uma série de outros na empresa, os patrões preferem calar quem denuncia as irregularidades.

Joaquim trabalha na AmBev – Jacareí há 23 anos e é um incansável militante pela causa dos trabalhadores há mais de 30 anos. Já foi presidente do Sindicato dos trabalhadores nas indústrias de Alimentação de São José dos Campos e região e foi recentemente eleito pelos trabalhadores para exercer um novo mandato como vice-presidente da CIPA da AmBev – Jacareí. Além disso, Joaquim é membro da Executiva da CSP-Conlutas (Central Sindical e Popular) no estado de São Paulo.

A AmBev é a subsidiária brasileira da megacorporação multinacional AB InBev, a maior empresa cervejeira do mundo, presente em 32 países com cerca de 80 mil trabalhadores. A presença de Joaquim dentro da empresa sempre foi uma pedra no sapato dos patrões. Sua demissão acontece nas vésperas da tentativa da empresa de enfiar goela abaixo dos trabalhadores uma proposta rebaixada de participação nos lucros. No ano passado, os trabalhadores da AmBev entraram em greve contra as propostas rebaixadas da empresa e por melhores condições de trabalho, incluindo temas referentes à segurança e saúde dos trabalhadores.

Trata-se, portanto, de forma clara e categórica, de uma perseguição contra a organização sindical dos trabalhadores da AmBev como parte da ofensiva patronal contra aqueles que ousam lutar em várias partes do mundo em meio à crise capitalista internacional.

A tarefa de lutar pela reversão da decisão da empresa deve ser assumida pelo conjunto do movimento sindical, popular, estudantil e pelas forças políticas de esquerda e democráticas. Por isso, fazemos aqui um chamado a todos os companheiros e companheiras para que se somem nessa campanha.

Encaminhe em seu sindicato, entidade ou movimento, uma moção de repúdio a demissão e apoio à luta pela readmissão do companheiro Joaquim. Envie cópia da moção para a empresa e para o sindicato.

Ajude também a divulgar amplamente as informações sobre mais esse ataques dos patrões e os passos que estão sendo dados pela campanha pela readmissão do companheiro Joaquim.

Por favor assine a petição abaixo em favor da readmissão de Joaquim. Você estara ajudando um trabalhador a recuperar seu  emprego!

http://www.peticaopublica.com.br/PeticaoAssinar.aspx?pi=P2012N22464

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O Eike Batista falou: a culpa é da vítima!

Por Léo Lince

Carros de Thor Batista após o atropelamento de Wanderson Pereira dos Santos

Sábado último, por volta das 19:30 horas, um ciclista foi atropelado e morto no km 101 da rodovia que liga o Rio a Petrópolis. Segundo estatística da Polícia Rodoviária, trata-se de tragédia comum naquele trecho de estrada. Wanderson Pereira dos Santos, como tantos outros, “morreu na contramão atrapalhando o tráfego”.

Quando a rodovia despeja a velocidade de suas máquinas no pandemônio que caracteriza as cercanias das grandes cidades, o modo de vida dominante abre as comportas letais da violência embutida em seu cotidiano. São ocasiões, os sinistros, nas quais a morte passeia rindo uma das suas bocas mais vorazes.

O caso em pauta, portanto, é parte integrante do absurdo que vai se tornando emblema da barbárie que nos envolve.  No entanto, o seu registro, tanto no noticiário quanto na consciência de quem o observa, será marcado por algumas particularidades. A razão é simples: envolve celebridades e, até por isso, exibe um agregado de outras violências, também reveladoras de feições distintas da mesma barbárie.

O atropelador foi um garoto de 20 anos, Thor Batista, filho da mais controversa celebridade do atual momento brasileiro. Vinha de um almoço em restaurante de luxo no alto da serra, tarde inteira de confraternização com amigos da sua idade. Como o pai, apaixonado pela velocidade, pilotava com desenvoltura uma máquina poderosa: a Mercedes SLR MacLarem, 626 cavalos de potência, que acelera de 0 a 100 km/h em menos de 4 segundos, chegando à velocidade máxima de 334km/h. Depois da descida da serra, na planura onde sempre se acelera, ele protagonizou a tragédia que pode lhe conceder o triste galardão do homicida.

O atropelado era um brasileiro comum, ajudante de caminhoneiro, 30 anos, morador nas redondezas da estrada. Segundo sua mãe de criação, ele construía uma casa a cinco minutos do local e sempre percorria aquele trecho de bicicleta.  Vinha de uma mercearia, onde comprara ovos e leite condensado para fazer um pudim em comemoração ao aniversário da mulher. Voltava para casa, como estava habituado, pelas margens da rodovia e no sentido contrário ao dos carros.  Morreu na hora e foi enterrado em cova rasa do cemitério de Xerém.

Passado o fato lutuoso, ao invés de guardar silêncio em respeito ao morto, o pai do atropelador resolveu disparar as matracas da arrogância. Declarou aos jornais que, ato contínuo ao desastre, ligou o seu “dispositivo pessoal de administração de crise”.   Na certa, um batalhão de seguranças, assessores de imprensa, advogados e que tais, todos muito bem aparelhados para servir aos desígnios do chefe. O objetivo, além de tirar o filho da encalacrada, é construir para o episódio uma versão favorável à sua imagem pública de grande benfeitor.

Eike e sua Mercedes na sala de sua mansão: a arrogância do maior capitalista brasileiro.

Em entrevista exclusiva para a colunista Mônica Bergamo, na Folha de S. Paulo de 20 de março, a estratégia de combate está bem definida. A começar pela manchete em letras garrafais: “Imprudência de ciclista poderia ter matado meu filho, afirma Eike”.  Declarou que seu filho não bebe, foi exemplar, estava na velocidade permitida, tomou as providências devidas, enfim, razão de orgulho: “os seguranças do Thor me contaram o que tinha acontecido em detalhes”.  Esses mesmos seguranças é que devem ter tomados todas as demais providências, inclusive as relacionadas com a perícia em tempo recorde e de resultados até agora não divulgados.

A família (do morto) diz que o carro bateu de frente e que o coração do ciclista entrou no carro”, essa foi a mais terrível das perguntas feitas na entrevista em pauta.  A resposta dada não contesta o que foi afirmado, mas produz uma inversão reveladora da miséria moral do entrevistado: “A pessoa, quando bate em você, é que nem uma bala de revólver que entra pelo carro adentro. (…) O Thor está cheio de vidro. O corpo da pessoa foi parar entre o meu filho e o amigo. O triste é que as pessoas acham que a arma letal é o carro. Acontece que o pedestre, no lugar errado, se torna a arma letal para quem está dentro do carro”.

Faz lembrar um conto premonitório de Rubem Fonseca, “Passeio Noturno”, cujo personagem, também um vitorioso homem de negócios, tinha a obsessão por atropelar pedestres. A diferença é que o carro dele, um Jaguar preto, “ia de zero a cem quilômetros em nove segundos”.  Era menos potente do que o martelo de Thor.

Na sequência do inquérito aberto para investigar o caso, o jovem atropelador, acompanhado de um batalhão de seguranças e advogados, prestou depoimentos e, de acordo com o planejado no “dispositivo de administração de crise”, jurou inocência. O noticiário da televisão destacou as declarações de Thor e de seus advogados. Os familiares e o advogado do morto, infelizmente, não puderam ser ouvidos.  Pelo andar da carruagem, os jornais já noticiam que o filho de biliardário “pode nem ser indiciado no inquérito e o ciclista pode ser apontado como causador da própria morte”.  O Eike Batista falou: a culpa é da vítima.

Léo Lince é sociólogo

Página Infeliz

Por Chico Alencar

“Brasileiro não tem memória”, diz o senso comum. Entretanto, um povo só avança em civilização conhecendo sua própria história. Esquecer períodos é postura obscurantista e perigosa: quem não se recorda do passado corre o risco de revivê-lo.

Os crimes de perseguição, tortura, assassinato e desaparecimento de presos políticos, cometidos pela ditadura civil-militar implantada com o golpe de 1964, foram hediondos. Ninguém pode ser conivente com eles. Quando se alega que também houve prática “terrorista” por parte daqueles que se insurgiram contra a ditadura, igualando-os aos torturadores, omite-se importante aspecto: enquanto o governo militar agia, sem legitimidade para tanto, sobre pessoas imobilizadas, os que ousavam resistir ao regime pagaram seus atos com prisão, sevícias cruéis, exílio ou morte. Já foram violentamente punidos, sem limites. Seus algozes, por outro lado, até ascenderam na hierarquia do serviço público ou no mundo empresarial!

Não há revanchismo: ninguém quer torturar torturadores, realizar prisões ilegais e negar direito de defesa, mas fazer valer o direito à memória e à justiça. Passado é o que passou e o que, sendo devidamente lido e relido, nos constitui. A máquina de terror montada pela ditadura não pode ser “página infeliz” virada, arrancada ou lida às pressas. Nem “passagem desbotada na memória das nossas novas gerações”, como alerta a denúncia poética de Chico Buarque e Francis Hime.

A sociedade tem o direito irrenunciável de conhecer quem ordenou a tortura e torturou, quem montou a estratégia, quem a financiou, quem praticou atos tão covardes que nem mesmo o regime, embora os tenha organizado “cientificamente” e exportado know how para ditaduras vizinhas, os assumiu.

A consciência democrática não compreenderia a adesão da oficialidade contemporânea a processos espúrios, que só desonraram seus estamentos. Que corporativismo seria aquele que defendesse como seu “patrimônio” práticas que atentaram contra os mais elementares direitos das pessoas? Ou que corroborasse, passadas três décadas, escandalosas mentiras?

O princípio humanista garante que as famílias que não tiveram sequer o direito de sepultar seus entes queridos, ou que viveram o drama indizível de sabê-los nas masmorras, sofrendo todo tipo de agressão, conheçam seus carrascos. Para usar, se desejarem, o direito de acioná-los judicialmente. Os protagonistas da repressão encapuzada devem ter a hombridade de reconhecer que praticaram atrocidades, caminhando assim para o que em direito se chama de “arrependimento eficaz”, como ocorreu na África do Sul.

A Comissão Parlamentar da Verdade, que já tarda, e suas similares nos Legislativos, devem atuar dentro deste viés humanista: com firmeza, serenidade e visão de processo histórico.

Chico Alencar é professor de História e deputado federal (PSOL-RJ).

Fonte: o Globo, sábado, 10 de março de 2012, p. 7