Grécia: Terremoto político leva a colapso dos partidos pró-austeridade

Niall Mulholland (CIT) – 10 de maio de 2012

Entrevista com Andros Payiatsos, do Xekinima (seção do CIT na Grécia), após as recentes eleições na Grécia, em que dois terços dos eleitores votaram contra os partidos que defendem a política de austeridade e os partidos de esquerda fizeram grandes avanços.

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O que os resultados eleitorais representam?

Os resultados das eleições parlamentares na Grécia foram um terremoto político, um repúdio esmagador dos partidos pró-austeridade e à “troika” (Fundo Monetário Internacional, União Europeia e Banco Central Europeu). Isto depois de anos de medidas de austeridade que levaram a um colapso nos padrões de vida, 51% de jovens desempregados e pobreza crescente.

Os partidos da coalizão do governo anterior sofreram um colapso massivo em seu apoio. O partido conservador tradicional, a Nova Democracia, caiu de pouco mais de 33% em 2009 para 18,85% (108 deputados, que inclui o bônus de 50 deputados recebido pelo maior partido, de acordo com a lei eleitoral grega). O PASOK, o partido socialdemocrata tradicional, caiu de 43,9 % nas últimas eleições para 13,18% (41 deputados). Nas últimas três décadas, o voto combinado dos dois partidos “dominantes” variou entre 75% e 85%. Laos, o pequeno de direita que se juntou a Nova Democracia e o PASOK na coalizão de austeridade durante alguns meses, perdeu todos os seus deputados.

Os maiores ganhos foram para a Syriza (Coalizão da Esquerda Radical), que passou de 4,6% para 16,78% (52 deputados). O Partido Comunista (KKE) ganhou 8,48% (26 deputados). A Esquerda Democrática, que rompeu com Syriza em 2010 numa linha mais à direita, mas que também atacou os cortes de austeridade, obteve 6,1%.

Esse crescimento da esquerda mostra o enorme potencial para uma alternativa socialista audaz para a crise capitalista e os cortes de austeridade.

No entanto, o que dever servir como um aviso para o movimento dos trabalhadores, o partido neofascista Aurora Dourada, explorando o sentimento anti-cortes e o tema da imigração, obteve 6,97%. Pela primeira vez, este partido de extrema direita entrou no parlamento, com 21 deputados. O Gregos Independentes, uma recente cisão de uma ala da direita nacionalista da Nova Democracia, também entrou parlamento, com 10,6% (33 deputados).

Embora os resultados eleitorais revelarem uma polarização entre a esquerda e a direita, muitos trabalhadores e jovens não viram uma alternativa viável e simplesmente se abstiveram de votar em qualquer partido. A abstenção foi muito maior que o previsto, um recorde de 35%, e os votos em “branco” e “nulos” foi de 2,4%.

Por que a Syriza ganhou tantos votos?

A Syriza ganhou apoio ao longo das duas últimas semanas da campanha eleitoral, principalmente apelando por um “governo de esquerda” contra o “memorando” (exigindo cortes em troca de empréstimos) da Troika.

Os militantes do Xekinima foram os primeiros a reivindicar uma “frente única” da esquerda e por um voto nos partidos de esquerda ao longo dos últimos meses. Ao contrário dos líderes da SYRIZA, o Xekinima não defendia uma “renegociação” das severas medidas de austeridade, mas sim que um governo de esquerda que levasse a cabo um programa para defender o povo trabalhador. Isso incluiria cancelar a dívida pública, suspender todos os cortes, nacionalizar os principais bancos e indústrias, sob controle e gestão democráticos dos trabalhadores, e lutar por uma Europa socialista, ao invés da União Europeia dos patrões – rompendo com os ditados pela Troika e pelo capitalismo em geral.

As outras forças principais da esquerda na Grécia, o Partido Comunista (KKE) e Antarsya (Cooperação da Esquerda Anticapitalista), ambos tomaram uma atitude sectária e rejeitaram a proposta da Syriza de “unidade da esquerda”. Se a esquerda tivesse formado um bloco eleitoral, eles iriam provavelmente estar agora em posição de poder formar um governo! Com o anseio de milhões de trabalhadores por um governo de esquerda ant-cortes, o KKE e Antarsya pagaram caro por sua postura nas eleições. Seus votos permaneceram praticamente estagnados: o KKE cresceu apenas 1% (menos de 19 mil votos) para 8,48% (26 deputados) e Antarsya terminou em 1,19%, sem deputados.

Vão conseguir formar um novo governo?

Sob a Constituição grega, a Nova Democracia, como o maior partido, foi dada três dias para tentar formar um novo governo. Mas seu líder, Antonis Samaras, anunciou na segunda-feira depois de apenas algumas horas que o seu partido havia falhado em sua tentativa de criar um “governo de salvação nacional”.

Dado o inequívoco veredicto anti-austeridade do eleitorado, nenhum partido que entraria em um governo de coalizão pode fazê-lo sem, pelo menos, se comprometer a renegociar o “memorando” com a Troika.

A Troika pode estar preparado para voltar a negociar sobre aspectos do memorando e fazer algumas concessões menores. Mas a Troika não vai concordar em acabar com as demandas centrais de pagamentos enormes da dívidas da Grécia, que só pode vir à custa de cortes ainda maiores às políticas de bem-estar social, empregos e padrões de vida. A questão da participação grega na zona do euro e até mesmo na UE, muito provavelmente, será rapidamente colocada em pauta.

A política grega está entrando em águas muito turbulentas. O convite para formar um governo passou para Syriza, como o segundo partido. Se ele falhar, a iniciativa vai ao PASOK, e se isso falhar o presidente grego pode tentar montar uma coalizão.

A força combinada no parlamento da Syriza e do KKE, mesmo em conjunto com a Esquerda Democrática, não é suficiente para formar um governo de maioria, e, até hoje, o KKE se recusou a aceitar a proposta do Syriza.

A falha em formar um novo governo levaria a novas eleições. A classe dominante tem razões adicionais para temer esta perspectiva, com a perspectiva provável da Syriza se tornando o maior partido parlamento.

O que a esquerda deve fazer agora?

Alexis Tsipras, o líder Syriza, disse que vai se esforçar para formar uma “coalizão de esquerda” para rejeitar as “bárbaras” medidas associadas com o acordo de resgate da UE/FMI.

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Xekinima – Organização Socialista Internacionalista Seção do CIT na Grécia.

Xekinima apóia a convocação de um governo de coalizão de esquerda, mas deve ser um governo totalmente comprometido a se opor a todos os cortes de austeridade e à UE dos patrões, rejeitando o pagamento da dívida e implementando uma política em prol dos trabalhadores, não ‘renegociando’ ‘cortes mais leves’ e condições ‘mais generosas’ para o pagamento da dívida, que ainda significaria um rebaixamento do padrão de vida dos gregos. A liderança da Syriza deve se opor a qualquer coligação ou cooperação com os partidos dos patrões, o que seria uma armadilha desastrosa.

Há agora uma grande oportunidade para a Syriza apresentar um programa por um governo dos trabalhadores. É verdade que, de acordo com a aritmética parlamentar, a esquerda não tem deputados suficientes para formar tal governo. Além disso, a liderança do Partido Comunista Grego, até agora, se recusou a cooperar com o Syriza. Mas vai haver uma enorme pressão dos sindicalistas, dos ativistas de movimentos sociais e das bases do KKE e Syriza, insistindo que ambas as partes rejeitem qualquer sectarismo e ao mesmo tempo, qualquer política de ‘cortes amenos’ baseadas em austeridade ‘renegociada’. Ativistas do movimento dos trabalhadores querem unidade pra valer da esquerda, preparando o terreno para formar um novo governo da esquerda no futuro próximo.

Um programa para unir a Syriza e KKE em torno de uma oposição a todas as medidas de austeridade e os ditames da UE, pelo cancelamento da dívida e a nacionalização dos principais bancos e indústrias sob controle democrático dos trabalhadores e por uma mudança socialista, como a base para um governo dos trabalhadores, ganharia amplo apoio da classe trabalhadora, juventude e setores arruinados da classe média. Iria inspirar um ressurgimento da ação das massas nos locais de trabalho e comunidades.

Se for feita uma tentativa para formar mais uma coalizão pró-cortes, baseado no PASOK e ND, o movimento de esquerda e de trabalhadores, precisa organizar a oposição em massa, incluindo greves gerais e ocupações nos locais de trabalho, para impedir tais tentativas, que não têm mandato.

A eleição da semana passada deixa claro que um governo de maioria de esquerda é possível. Se novas eleições ocorrerem em junho, os partidos de esquerda terão uma grande oportunidade de ganhar uma maioria. Isto requer que os partidos de esquerda adotem políticas socialistas – rejeitando o pagamentos da dívida e lutando para romper com a UE dos patrões e o sistema de lucros. Significa, também, uma forte frente unida da esquerda e do movimento dos trabalhadores contra a ameaça dos neofascista e da extrema direita.

Se a esquerda não consegue oferecer uma alternativa socialista viável, a extrema-direita pode parcialmente preencher esse espaço e crescer, e a classe dominante também procurará implantar medidas mais autoritárias contra o movimento dos trabalhadores que resistem aos cortes.

Fonte: LSR

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