Os lados de Marina Silva e do PSOL em 2014

Por Fernando “Tostão” Silva

marinaA ex-senadora Marina Silva está decidida a lançar um novo partido e assim voltar a concorrer à Presidência da República em 2014. É o que podemos concluir das seguidas notícias deste mês na grande mídia, do ato de lançamento realizado em São Paulo em janeiro e confirmadas em redes sociais, inclusive pelo facebook da vereadora Heloísa Helena, que também esteve reunida com sua colega este mês.

Considerando que este tema suscita, desde 2009, um importante debate no interior do PSOL sobre a natureza dos movimentos políticos de Marina Silva, a ponto de setores e dirigentes importantes do partido virem desde então flertando abertamente com a ex-senadora, a questão exige um posicionamento, pois a questão deverá ser parte dos próximos debates partidários.

Depois de sair do PV, Marina Silva constituiu um movimento que prega uma “nova política”, demonstrando até um viés crítico à preponderância da forma institucional eleitoral de se fazer política no país e seus vícios conhecidos. Tal crítica gerou no interior deste movimento até uma corrente de opinião com forte resistência à criação de uma nova legenda partidária.

Mas, em sua essência e pelos setores e perfil que este movimento revela buscar com a legalização da nova legenda, o novo partido de Marina não é um fato progressivo para a reorganização da esquerda socialista, não é aliado na busca de um projeto anticapitalista de ruptura, capaz de vertebrar uma oposição política global tanto ao modelo lulista vigente como ao ideário de direita mais clássico representado pelo PSDB.Continuidade e não ruptura com 2010

Admitimos que este novo lance da ex-senadora provocará dúvidas. Afinal, Marina Silva saiu do fisiológico PV de Zequinha Sarney, partido que mantém relações de proximidade com o poder, tanto na esfera federal petista como nas estaduais e municipais tucanas. Poderia assim sinalizar uma movimentação progressiva e democrática para a esquerda? Existiam expectativas, até porque em algumas questões importantes, como no caso da revisão do Código Florestal, houve uma unidade de ação entre a ex-senadora e partidos da esquerda socialista e movimentos sociais.

Mas, no conteúdo do seu programa e projeto, não há uma ruptura com 2010. Na ocasião, o PSOL, por meio da candidatura presidencial de Plínio de Arruda Sampaio conseguiu demonstrar os limites da crítica de Marina, crítica pela metade, incompleta, à política ambiental do lulo-petismo, pois não sugeriu nunca uma ruptura com a política econômica do governo e nem com o agronegócio. Plínio disse, em resposta à Marina em um dos debates eleitorais de 2010: “Você na verdade tenta conciliar tudo. Gente, tem uma contradição neste país, muito profunda, que precisa aflorar, que precisa vir à tona. Essa candidatura é a que contraria todo esse bom mocismo que vejo por aqui. ‘Tudo pode ser conciliado’. Tudo não pode ser conciliado! Tem coisas que devem ser decididas implicando custos. Eu vim aqui assumir custos em nome do meu partido e dos movimentos sociais”.

capitalismo verde

Não existe equilíbrio ambiental sob o capital.

O projeto da ex-senadora continua sendo o de um capitalismo verde, que admite inclusive um agronegócio sustentável e que não critica a fundo o modelo “desenvolvimentista” vigente dependente do capital financeiro.

O modelo global dos governos petistas, seu favorecimento ao agronegócio industrial e à exportação de commodities, não pode ser criticado pela metade ou “reformado”. Um projeto que tenha como limite um “capitalismo verde”, além de incutir ilusão diante das diretrizes gerais do sistema econômico, omite ou tergiversa sobre o fato de que uma economia sustentável não é compatível com metas de superávit primário, cortes nos gastos, remuneração ao capital financeiro, privatização da infra-estrutura do país. Não se pode criticar o modelão das grandes obras, do transporte individual e rodoviário, e silenciar diante dos parâmetros da macropolítica econômica que vigoram no país há duas décadas. Nisto não há uma evolução à esquerda nas ideias de Marina.

Uma reorganização de centro-direita no horizonte

A estratégia de Marina é buscar um novo partido capaz de atrair setores e personalidades oriundas de variadas matizes partidárias, incluindo o tucanato, o DEM, sem deixar de lado PT e setores do PSOL. Sua proximidade recente com o PPS e o fato de ter apoiado a eleição do empresário Ricardo Young (um dos participantes do seu movimento e eleito vereador em São Paulo pelo PPS) atesta também que esse movimento ocupa o buraco aberto pela crise do bloco da oposição de direita.

No atual cenário político, o PSDB vem se enfraquecendo como alternativa de governo ao lulismo, a ponto de que talvez o mais importante em 2014 para os tucanos seja “segurar” o estado de São Paulo. O DEM quase some do mapa das grandes capitais. O PSD de Kassab nem tem o charme do “novo”, com origem nos movimentos sociais (impossível isto com figuras com Kassab e Katia Abreu) e nem é uma alternativa que nasça demarcando com o atual campo governista. Pelo contrário, sustenta cada vez mais o governo Dilma.

Portanto, o novo partido de Marina Silva surge como uma possibilidade de reorganização do campo da centro-direita institucional. Expressa uma reorganização de forças políticas burguesas, daqueles que querem uma alternativa à ampla hegemonia lulista, sem romper com o modelo, podendo carregar nas tintas do discurso anti-corrupção sem os esqueletos no armário que os tucanos guardam e, ao mesmo tempo, defendendo posições comportamentais reacionárias que podem dialogar e abrir relações mais íntimas com partidos e igrejas evangélicas conservadoras.

Não é, portanto, uma recomposição que beneficia uma esquerda anticapitalista que luta em difíceis condições para a reconstrução de um projeto, mas que vem galgando posições e credibilidade em parcelas cada vez mais expressivas dos trabalhadores, da juventude, das mulheres, dos lutadores sociais.

O discurso de Marina caminha pela tortuosa trilha da conciliação de classes, surfa nas ondas de uma consciência política inclusive neoliberal, lançando mão por vezes até de uma retórica pós-moderna. Em 2010, Marina se dedicou a disputar parcelas da população que expressam a descrença em transformações, projetos e revoluções. Jogou no tabuleiro das derrotas de décadas da classe trabalhadora do país para angariar votos daqueles que acreditam que o novo na política é o fisiologismo ético. Com esta nova movimentação, a ex-senadora e seus aliados reafirmam, diferente do que parece, a lógica do atalho. Afinal, se não existe projeto político alternativo de massas capaz de movimentar a classe para processos de ruptura, é conveniente, portanto, adaptar o discurso e o programa ao sentimento de conciliação que ajudou a ampliar bases de apoio ao lulismo nos últimos anos.

Até os possíveis nomes da nova organização – Semear (Sustentabilidade, Educação, Meio Ambiente, Ética e Renovação), Gaia, Rede Verde, Plural, Partido da Terra e Brasil Vivo – desnudam o projeto de Marina.

O financiamento das pessoas físicas… empresariais

Por fim, mas não menos importante, o movimento pelo novo partido de Marina avisa que só aceitará doações de campanha de pessoas físicas, que isto seria um dos seus diferenciais. E isto seguramente despertará simpatia. Afinal, são crescentes o desgaste e a crítica cada vez mais ampla ao financiamento privado, das campanhas milionárias, que produzem uma democracia em que o poderio dos financiamentos define resultados eleitorais ou, como mínimo, decide quem tem chances de disputar ou quem de antemão já está fora do “jogo”.

Mas atenção! Vêm se tornado cada vez mais frequentes e relevantes os financiamento de pessoas “físicas” donos, acionistas ou grandes executivos de grandes grupos capitalistas que bancam as principais candidaturas e campanhas eleitorais no Brasil. A campanha de Marina Silva em 2010 já usou em grande escala esse recurso.

Mesmo de Eike Batista, Marina aceita financiamento.

Mesmo de Eike Batista, Marina aceita financiamento.

Segundo a prestação de contas apresentada no TSE pela então candidata do PV, além do notório financiamento individual de Guilherme Leal, dono da Natura, que doou R$ 11,9 milhões à campanha, já se destacavam outras doações individuais de pessoas físicas a Marina Silva: de Maria Alice Setúbal, filha de Olavo Setúbal, da família controladora do Banco Itaú, que doou na ocasião R$ 573,5 mil, e do emergente multimilionário Eike Batista, que doou “modestos” R$ 500 mil como pessoa física.

Desse ponto de vista, não deveremos ver “nada de novo debaixo do sol¹ em 2014 no novo partido de Marina. 

PSOL tem que afirmar alternativa anticapitalista e independente em 2014

O PSOL tem o mérito de ser dos poucos partidos que em todas as suas campanhas eleitorais defende o financiamento público de campanha. Também por essa razão, o lugar e posicionamento do PSOL, diante do provável novo partido de Marina Silva, não é de aliado na luta pela afirmação de um projeto anticapitalista e socialista de oposição de esquerda programática no Brasil.

Lamentamos que existam setores ou personalidades no nosso partido que tenham regredido em relação à originalidade e os objetivos do projeto PSOL e flertem com uma alternativa não socialista para o Brasil. Como é o caso da vereadora Heloísa Helena, que já em 2010 recusou-se a apoiar o candidato a presidente pelo PSOL em troca de um apoio discreto a ex-senadora e que, desde então, vem participando de articulações e reuniões em favor do movimento de Marina Silva; ao mesmo tempo em que aumentou o seu distanciamento e hostilidade para com o PSOL, a ponto de esconder a sigla do partido até mesmo nas suas campanhas eleitorais em Alagoas. Uma lástima e um grande retrocesso, considerando o lugar que Heloísa Helena ocupou na formação do PSOL e naquele momento decisivo para a reorganização de uma esquerda socialista e partidária renovada.

Mas o PSOL não pode hesitar em estabelecer cortes e fronteiras muitas claras com o partido da ex-senadora Marina Silva. Em 2014 e desde já, na preparação do IV Congresso e no engajamento nas lutas sociais de 2013, nosso partido deverá se preparar para afirmar em um patamar ainda melhor uma alternativa anticapitalista e socialista independente, colada na resistência contra o modelo depredador do meio-ambiente e dos direitos dos trabalhadores. E isto significará ter programa e candidatura própria pra valer nas eleições, construída com outros setores da esquerda e com os movimento sociais, sem perder a coerência que apresentamos nas eleições de 2010 e na esmagadora maioria das cidades em que o PSOL se apresentou nas eleições municipais recentes. Assim, o PSOL reafirmará seu papel de contribuir com o processo de reorganização da esquerda do país.

¹ referência a um verso da música Palavras, dos Titãs

Fernando Silva, Tostão, é membro da Executiva Nacional do PSOL.

Fonte: CSOL

4 Respostas para “Os lados de Marina Silva e do PSOL em 2014

  1. Ronaldo Freitas Oliveira

    Parabéns, Tostão, esse é o PSOL que queremos nas ruas em 2014… mas também em 2013, 2015, 2016 ….sempre!!
    Axé
    BAguinha

  2. muito bom o artigo, tostão, a preocupação com os caminhos que Heloísa tem tentando impor a sua estadia no PSOL e os desvios de postura que presenciamos nas ultimas eleições em Amapá e alguma coisa em belém, precisamos nos precaver, ou vamos nos tornar uma legenda como esta da Marina.

  3. O Psol é oi meu partido do coração, mas só entrei nele devido as ideias da Heloisa Helena e Plínio Arruda, rescentimento das idéias de Jean Wilian, as idéias dp psol são ótimas, mas depoisq começei a estuda ciências sociais, percebi que não para governa o Brasil na idéias deles, é muito radical, estão fazendo um Marxismo distorcido de Marx, as ideias da Marina Silva estão mas coerete, a união faz a força e não a divisão, mudanças se faz aos poucos, radicalmente só trás revola, nesse caso da população que nunca votará no psol, socialismo já era, agora é democracia renovada é a solução.

    • Camarada, se vc está estudando Marx você deve saber que Marx só acreditava na mudança com a revolução, pois existe a luta de classes, isto é, a sociedade é divida entre trabalhadores e os donos dos meios de produção – o patrão, o burguês – e o interesse entre essas classes é dicotômico. Marx na sua própria vida teve a experiência de se aliar à burguesia e no momento em que ele conseguia atingir muita gente, através da Gazeta Renana, jornal financiado pela burguesia na qual era o editor chefe, a burguesia fechou o jornal. As eleições para nós são um momento de acumulação de forças e propaganda do socialismo. Plínio que te dá inspiração também é de inspiração revolucionária. Nossos parlamentares estão lá para propor medidas anticapitalistas e denunciar as opressões do sistema. A produção de mais valia só gera opressão e exploração e enquanto houver uma classe de elite dirigente, política e econômica, haverá uma classe subalterna oprimida. Marina Silva é uma conciliadora de classes, o que no fim significa a manutenção de tudo como está. O burguês cada dia mais rico e o trabalhador cada mais mais explorado e sem direitos. Marina está associada a banqueiros e grandes empresários exploradores de trabalhadores, como o seu vice Guilherme Leal, dono da Natura, uma empresa que não paga direitos trabalhistas, que explora, que rouba propriedade intelectual dos povos tradicionais e que sonega impostos e comete crimes ambientais. Marina está ao lado da herdeira do Banco Itaú. Aliás, nessa crise mundial colocada, quem mais está se dando bem são os grandes bancos privados. São eles que exerce o lobby para que os direitos dos trabalhadores sejam cortados, como a previdência, os direitos trabalhistas, a assistência social. Nosso país gasta 50% de tudo que arrecada pagando dívidas fraudulentas e que deveriam, pela Constituição, serem auditadas e nunca foram, aos banqueiros nacionais e internacionais, e investe apenas 5% em saúde, 2% em educação. Que democracia é essa que se constrói ao lado de banqueiros? A democracia dos ricos, onde o lucro está acima das pessoas? Abra seu olho companheiro, venha fazer o debate presencialmente conosco, estamos de portas abertas para debater com você. E para finalizar cabe salientar que a votação do PSOL, bem como o número de filiados e militantes, só faz crescer a cada dia. É um processo longo, trabalhoso, mas a cada dia convencemos mais e mais pessoas que se somam na construção de uma outra sociedade possível, uma sociedade não capitalista. Abraços.

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