Arquivo do mês: novembro 2013

A primeira Greve do Serviço Público Municipal em Rio das Ostras

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Jonathan Mendonça – Professor da Rede Pública de Ensino de Rio das Ostras e Macaé e militante do Campo Luta Educadora

O Movimento de Junho abriu caminho para a reorganização dos trabalhadores no Brasil. No estado e Município do Rio de Janeiro, o movimento grevista dos professores inspirou diversos outros setores, inclusive de outras cidades a resgatar a GREVE, esta importante ferramenta de luta da classe trabalhadora.

Em Rio das Ostras, os trabalhadores do serviço público municipal, após uma greve dos guardas municipais, paralisação de professores, grandes movimentos de junho, ocupação de câmara, grito dos excluídos, fora Cabral e outros diversos movimentos construídos pelos ativistas da cidade, definiram em assembleia por uma greve. Esta greve viria em decorrência da falta de diálogo do prefeito com o sindicato para tratar as questões do aumento salarial, valorização profissional e condições de trabalho (em resumo).
O prefeito, durante cerca de 2 meses não abriu diálogo, embora, já durante a greve, tenha afirmado na mídia local, TV, jornal, rádio, televisão e através de informativos da prefeitura com este fim, de que “sempre esteve aberto ao diálogo”, e que “Rio das Ostras não possui dinheiro para um aumento superior ao proposto”, de 5,69%.
A Câmara dos vereadores aprovou o projeto enviado pelo prefeito em duas votações em 12 e 13/11, sob muitos protestos dos servidores. O presidente da casa, vereador Nini, restringiu o número de pessoas na casa e proibiu a entrada com instrumentos que pudessem “fazer barulho”, além de proibir o uso de celular (com o intuito de não deixar filmar a sessão).
Alguns dos vereadores que eram oposição no governo passado aproximaram seus discursos dos servidores para ganhar a simpatia deste setor. Carlos Afonso, antigo presidente da casa, corresponsável pela criação das 4 Secretarias que escandalizaram a cidade, pelo aumento de 220% para os vereadores, pela aprovação do Plano de Cargos, Carreiras e Vencimentos sem a participação dos servidores, dentre outros, agora coloca-se como oposição, dizendo que está do lado do servidor junto a outros vereadores.
Do outro lado, o presidente da casa, Nini, que no governo laranja de Carlos Augusto (PMDB) se demonstrava como oposição, inclusive “dialogando” com o sindicato, hoje, aprova junto a outros vereadores a reposição salarial à revelia do que querem os servidores. Também mantém na casa um Regimento Interno que impede todos os assistentes de se expressarem e os populares de utilizarem o Púlpito.

Na verdade, nenhum destes setores está do lado dos servidores. Estão criando uma guerra interna para disputa da presidência da casa. E ESTA GUERRA NÃO É NOSSA! No momento que for necessário eles se juntarão contra a população como já vimos diversas vezes nas homéricas oscilações de parceria entre Carlos Augusto, Sabino, Gelson e ‘Broter’.
Por tudo isto, fez-se necessário um movimento grevista. Entretanto, o SindServ (Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Rio das Ostras) demorou muito para dar respostas. A prática CUTista de priorizar a institucionalidade fez com que o movimento perdesse o momento histórico de modo que a greve só tenha sido deflagrada após a aprovação do dissídio.
Em diversos outros momentos, ficou evidente que a direção do sindicato recuava quando era necessário avançar. Defendemos a construção da greve desde o início deste processo e acreditamos que a direção, muitas vezes sob o falso argumento da inviabilidade jurídica, desmobilizou setores importantes na construção deste movimento.
Acreditamos que o sindicato tenha de se responsabilizar pela construção da greve, garantindo a estrutura, rodando as bases para mobilizar, estando de frente e avançando a consciência dos trabalhadores para a necessidade de ações que constranjam a inércia do governo diante o diálogo com a categoria.
Saímos desta greve com muitos aprendizados e com a certeza de que esta foi um dos momentos mais importantes da história política da cidade: A primeira greve dos servidores públicos municipais. Agora, temos de repetir os acertos e não cometer os mesmos erros rumo à construção de uma nova mobilização mais estruturada que obrigue o governo a recuar e traga novas vitórias aos servidores.

O governo fascistoide e oligárquico de Rio das Ostras e os fantoches da Câmara Municipal

Marcos Cesar de Oliveira Pinheiro*

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A situação política em Rio das Ostras é caracterizada, faz algum tempo, pela dicotomia eleitoral entre duas facções políticas: os “verdes”, personificados pelo atual prefeito Sabino (PSC), e os “laranjas”, comandados pelo ex-prefeito Carlos Augusto Carvalho Balthazar (PMDB). Ambos são aliados do atual governador do Rio Sérgio Cabral. Verde e laranja são cores de um mesmo borrão, faces de uma mesma moeda – a moeda dos grupos econômicos que estão por trás deles e que financiam suas campanhas eleitorais. Se apoiam nos mesmos grupos econômicos, e governam com os mesmos métodos e o mesmo modelo. As origens dessa história foram relatadas de forma esclarecedora pelo jornalista Benoni Alencar, assassinado em Rio das Ostras (setembro de 2011) logo após publicar o artigo “Verde e laranja, cores de um mesmo borrão” no site do PSOL Serramar. Veja um trecho deste artigo:

O próprio Sabino – e é isso que quero contar – só chegaria à condição de chefão da política riostrense por causa de uma briga entre o primeiro prefeito municipal, Cláudio Ribeiro, e os financiadores da política local. O hoje deputado [Sabino] contou-me a longa história, na presença de um amigo dele de infância, o médico Cláudio Alencar do Rego Barros. Vou procurar resumi-la. Cláudio Ribeiro, comerciante do ramo de marmoraria e vereador à Câmara de Casimiro de Abreu, disputou a eleição do município recém-emancipado — tendo como adversários o também vereador Gélson Apicelo, segundo mais votado, e o então bancário magricela Alcebíades Sabino, terceiro.
Na metade do mandado, quando se achava com a popularidade mais baixa que rabo de cobra, Cláudio Ribeiro chamou Sabino ao seu gabinete de prefeito, e lhe disse que iria iniciar uma nova etapa do mandado, necessitando do seu apoio. Revela, então, que rompera com os que haviam financiado sua eleição, dirigindo-lhes estas palavras: “Vocês já roubaram o suficiente; agora é minha hora de atender meus compromissos com os eleitores, governando para a cidade”. Ou seja, Cláudio colocava ponto final na roubalheira que permitira até ali, e agora queria recuperar o respeito do povo — que o tratava carinhosamente de “Coronel”, retribuição a um tratamento que Cláudio, homem comunicativo e cheio de energia, contando pouco mais de 40 anos, dispensava a todos que se acercavam dele. Olhou duramente os olhos de Sabino, e segredou-lhe, em voz reveladora de medo. “Esses homens são capazes de tudo, até de me matar. Por isso escolhi você para me apoiar, com seu grupo”.
Assassinado menos de dois meses depois, Cláudio Ribeiro expôs o seguinte plano. Desembaraçado dos sugadores do magro Orçamento municipal (não havia ainda o pote de ouro dos royalties do petróleo), recuperaria a popularidade, e apoiaria Sabino na sucessão (também não havia ainda a reeleição). Sabino, em contrapartida, deveria dar-lhe suporte na guerra “política” que eclodiria na cidade a partir daquele rompimento. Cético quando à possibilidade de Cláudio dar a volta por cima na sua impopularidade, Sabino prometeu dar resposta depois e pôs uma pedra sobre o assunto. Agoniado com a enrascada em que estava metido, Cláudio Ribeiro decidiu pôr o carro adiante dos bois, fazendo publicar nos jornais municipais, que controlava por meio das subvenções que dispensava à imprensa, a seguinte manchete: “Sabino é o candidato de Cláudio à sua sucessão”.
Sabino tremeu quando viu impressa aquela ameaça, no alto da página. Lastimou com seus botões a leviandade de Cláudio, que não esperara sua resposta – que seria negativa. Coronel, àquela altura da sua infeliz administração, não tinha prestígio para eleger sequer um vereadorzinho pescado em sobra de legenda. Imagine-se fazer o sucessor. Enquanto o magricela bancário digeria fel com que Cláudio o “mimava”, remoendo formas de minimizar os estragos que aquilo causava aos seus planos eleitorais, explode a bomba. Dois pistoleiros de aluguel, vindos do Rio, contratados pelos que Cláudio frustrara com sua decisão de acabar com a roubalheira, mataram-no com vários tiros nas costas, no seu sítio em Vila Verde, em pleno meio dia.
Eu ainda morava em Niterói, e havia passado em Rio das Ostras um dos adoráveis fins-de semana que costumava desfrutar aqui, no verão, quando me deparei com a nota do assassinato de Cláudio Ribeiro na minha mesa de redator do “Jornal do Commercio”, do Rio, cabendo-me editar a notícia. Fi-lo com angústia. Em aqui voltando, semanas depois, soube do resto da história. O povo compreendeu a tragédia de seu querido Coronel, perdoou-o pelos anos de mau governo, e fez do enterro dele a maior manifestação popular da história de Rio das Ostras — até não superada. A bem dizer ninguém ficou em casa – todos foram para a rua em lágrimas, levar o esquife do prefeito ao cemitério. Sabino seria confirmado, pela viúva de Cláudio, como o escolhido dele para a sucessão, e logrou eleger-se, derrotando o então favorito Gélson Apicelo, do PDT. Detalhe: a vice de Coronel, que completaria seu mandato, era também do PDT.
A história dessa tragédia, que relembro ainda com emoção, mostra como a política de Rio das Ostras é governada pelos financiadores de campanha, que recuperam o capital investido, multiplicado várias vezes, com os contratos que celebram com a Prefeitura durante o mandato do pupilo eleito. Contratos — ou votos para deputado na eleição seguinte […].
E este é o motivo, a meu ver, pelo qual nunca a política em Rio das Ostras se renova. Numa eleição sobem os verdes; na outra, os laranjas. Por detrás, sem visibilidade clara para os eleitores, os que nunca perdem eleição — os financiadores doublés de contratantes da Prefeitura, ou de deputados “benfeitores do município”, na expressão com que os prefeitos (laranja ou verdes) os apresentam à população.

Portanto, o governo municipal não está a serviço da população de Rio das Ostras, mas está encarregado de aplicar as políticas que seguirão beneficiando os próprios ricos – a oligarquia que domina o município, isto é, o grupo dominante local que usa o seu predomínio econômico para exercer o controle do âmbito político.
Assim, os políticos de Rio das Ostras não querem uma democracia (governo do povo), mas defendem com unhas e dentes – e mandando matar também, de acordo com o histórico desta cidade – a plutocracia aqui existente. [Plutocracia: sistema político no qual o poder é exercido pelo grupo mais rico.] Querem manter as coisas como elas estão.
Por isso, qualquer questionamento ao governo dos ricos de Rio das Ostras, os poderosos costumam reagir com extrema violência, mentindo e usando métodos típicos do que se convenciona a chamar de “guerra suja”. A sensação de impotência os deixa desesperado. Exemplo disso é a tentativa de desarticular e de criminalizar os movimentos sociais populares, como o Vem Pra Rua Rio das Ostras, e o movimento dos servidores públicos na luta por salários dignos e condições de trabalho.
Em relação aos servidores públicos, o prefeito Sabino, com sua retórica autoritária e suas atitudes fascistoides, tem tentado a todo custo oprimi-los, humilhá-los. O prefeito se nega a negociar um Acordo Coletivo de Trabalho. Recusa-se ao diálogo. Desrespeita a data-base dos servidores, que é em outubro, encaminhando uma proposta de reajuste de 5,69% valendo somente a partir do mês de novembro – os servidores estão sendo roubados em um mês ou a prefeitura acaba de instituir o ano de 13 meses. Oferece uma palestra aos servidores intitulada “Como ser feliz na família, na vida e no trabalho”, ministrada pelo “renomado” Daniel Godri – quanto custou aos cofres públicos essa palestra??????????? A palestra se resume na seguinte mensagem: o problema dos servidores públicos de Rio das Ostras não é uma questão salarial, o que está faltando é motivação, ânimo, abraçar a política oligárquica do prefeito Sabino. Entre as muitas metáforas usadas para “fundamentar” a mensagem do prefeito (manda quem pode obedece quem tem juízo), o palestrante afirma que o servidor tinha que ser como o cachorro. Ou seja, quando o dono (Prefeito) ordenar late, todo mundo late; quando o dono (Prefeito) ordenar abane o rabo, todo mundo abana o rabo. Depois de explicar o que é um funcionário “cachorro”, o palestrante solicita que a plateia reunida na quadra do C.M. Profa América Abdalla, no dia 31/10/2013, latisse demonstrando ter aprendido a lição. E não é que a plateia late animadamente. O prefeito, lá presente, não esconde a satisfação, com um largo sorriso, de ver o pessoal com cargos comissionados, servidores em função gratificada, servidores contratados e estatutários se submetendo aquela situação de degradação do ser humano. Aliás, a palestra, em sua essência, se mostra um espetáculo de stund-up comedy em que o motivo de piada é o servidor público de Rio das Ostras.

Agora, incomodado com as manifestações de insatisfação dos servidores públicos e com a iminente greve geral da próxima terça-feira, dia 12/11, o prefeito Sabino, na manhã desta quarta-feira (6/11), ORDENOU aos vereadores que votassem na próxima sexta-feira (8/11) o projeto de reajuste por ele encaminhado. Como fantoches do prefeito – pois assim eles estão se comportando – os vereadores já começam as manobras para cumprir as ordens do Chefe. Os vereadores conseguem se rebaixar cada vez mais e no ritmo que estão atingirão a camada de pré-sal antes da Petrobras. Em total desrespeito e falta de palavra com os servidores públicos, os vereadores de Rio das Ostras estão mostrando sua subserviência, sua relação de vassalagem e o seu compromisso com a oligarquia que domina a política desta cidade e exploram e oprimem a população riostrense. Os vereadores deveriam ter vergonha de se autodenominarem “representantes do povo”, pois, com a postura que estão tendo, não passam de figuras decorativas, abanando o rabo e latindo para os donos do poder de Rio das Ostras, representados na pessoa do prefeito Sabino.

NEM MAIS UM MINUTO, SERVIDOR!!! GREVE!!! GREVE!!! GREVE!!! DIA 12 VAI CHEGAR E A CIDADE VAI PARAR!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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Onde há luta tudo é conquistável e potencialmente perdível. Mas onde não há luta a derrota é certa.

Transformar a indignação numa atmosfera de combatividade crescente dos servidores públicos será um avanço. Será um golpe importante na engrenagem da máquina pública municipal, assentada no mandonismo, no clientelismo, no nepotismo e na repressão (de várias ordens). Será um passo importante para forçar a democratização das relações poder público X cidadãos no município de Rio das Ostras.

* Professor de História da Rede Municipal de Ensino Público de Rio das Ostras. Matrícula: 6273-1. Lotado na Escola Municipal Padre José Dilson Dórea, bairro Âncora, Rio das Ostras.

Em Rio das Ostras, o servidor público não precisa de salário digno, o que está faltando é motivação apenas

Por Marcos Cesar de Oliveira Pinheiro*
Quinta-feira, 31 de outubro de 2013, último dia do mês da data-base para o reajuste salarial do funcionalismo público de Rio das Ostras. O Prefeito do município, ou, para satisfazer o ego do mesmo, o “Chefe Supremo” da cidade-Estado da “Pérola entre o rio e o mar”, achou melhor não apresentar um projeto de aumento salarial para os servidores públicos. Depois de muitos estudos, resolveu contemplar os serviçais, perdão!, quis dizer os servidores, com uma palestra motivacional ministrada pelo “renomado” Daniel Godri, intitulada “Como ser feliz na família, na vida e no trabalho”. A palestra aconteceu na quadra do Colégio Municipal Professora América Abdalla, no centro desta cidade. Lá estavam presentes o “Chefe Supremo” e seus agregados, membros do Conselho Consultivo de Rio das Ostras, mais uma vez perdão!, quis dizer Câmara Municipal de Rio das Ostras, o pessoal com cargos comissionados, servidores em função gratificada, servidores contratados e estatutários. Ah!!! Havia também um pequeno grupo de “vândalos” e “baderneiros” reclamando pelo reajuste salarial e condições de trabalho dignas aos servidores públicos – eu estava no meio deste grupo de servidores que ficaram insistindo em querer exigir reajuste para os servidores na sua data-base, fazendo “pirracinha” para que se tenha um Acordo Coletivo de Trabalho, com a proposta de 21,4% de aumento, sendo 6,38% de inflação (INPC), 11,52% de reposição de perdas e 3,5% de ganho real, conforme estudo do DIEESE, entre outras demandas dos servidores públicos de Rio das Ostras.
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Na visão da “Pérola das pérolas” – outro título pomposo do “Chefe Supremo” – seria um equívoco dar aumento salarial aos servidores públicos, mesmo existindo cinco categorias atualmente ganhando menos de um salário mínimo. O argumento do “Ungido” – mais um título pomposo para o alcaide eleito com aproximadamente 70% dos votos válidos nas eleições de 2012 – é o seguinte. Para ele é preciso pensar politicamente. Se ele der o aumento exigido pelos servidores, terá que dar mais na próxima eleição. A estratégia, portanto, é dar pouco agora, para lá na frente “ficar bonzinho” e garantir a reeleição, conforme seria exposto pelo “Chefe Supremo” em almoço com alguns vereadores no dia 23 de outubro, no Restaurante do Dudu. Resumindo, o reajuste dos servidores públicos fica a mercê dos interesses eleitoreiros da medíocre classe política de Rio das Ostras, ou seja, dos “coronelzinhos” que não aceitam o princípio da soberania popular – “O governo do povo, pelo povo e para o povo” (Abraham Lincoln). Os políticos de Rio das Ostras não querem uma democracia, mas defendem com unhas e dentes – e mandando matar também, de acordo com o histórico desta cidade – a plutocracia aqui existente. [Plutocracia: sistema político no qual o poder é exercido pelo grupo mais rico.] Querem manter as coisas como elas estão. Isto é, nas eleições, a margem de escolha popular se reduz a decidir quem entre os representantes dos ricos será o encarregado de aplicar as políticas que seguirão beneficiando os próprios ricos. Em vez de soberania popular, defendem o governo dos ricos, pelos ricos e para os ricos.
Por isso, pensando politicamente, o “Chefe Supremo” contratou, com o meu, com o seu, com o nosso dinheiro, os serviços do “renomado” palestrante Daniel Godri, para que, de uma maneira dinâmica, bem humorada e em linguagem atual e direta (clichês), garantisse a retenção da mensagem do “Chefe Supremo”: o problema do servidor público não é salarial, mas apenas uma questão de motivação, de ânimo, dele se doar em prol do próximo, abraçar, em uma profissão de fé, sua condição de servidor público. O resto (salário) não tem a menor importância.
O “renomado” palestrante utilizou de muitas metáforas. Entre elas, de que o servidor público deveria ser como um cachorro. Ou seja, fiel e obediente ao seu dono. Quando o dono (Prefeito) ordenar late, todo mundo late. Quando o dono (Prefeito) ordenar abane o rabo, todo mundo abana o rabo. O palestrante solicitou que a plateia latisse e foi atendido prontamente. O Prefeito não escondeu a satisfação de ver seus “cachorrinhos” latindo animadamente. O Prefeito deve ter pensado: “estão no papo!”. Porém, insistentemente, continuou um grupo de “baderneiros” levantando faixas de protesto contra a ausência de aumento salarial para os servidores e protestando contra aquela situação humilhante que a plateia estava sendo submetida – evidentemente que cada uma das pessoas ali presentes deveria ter seu motivo, justificável ou não, para se prestar como figurante daquela cena deprimente. Eu estava no alto de uma das arquibancadas da quadra e daquele ângulo a cena que se passava frente aos meus olhos mais do que deprimente era de degradação do ser humano – um reality tipicamente grotesco, trash.
Apelando para a fé das pessoas ali presentes, o “renomado” palestrante recorreu à imagem de Jesus Cristo para solicitar que as pessoas tenham “resiliência” para com as dificuldades que enfrentam (ausência de um reajuste que garanta salários condignos aos servidores) e que depositem sua confiança no Prefeito, que ele precisa de servidores animados, motivados para assegurar o melhor para a cidade. Utilizou os mesmos argumentos que a Igreja Católica Apostólica Romana usava para pedir “resiliência” aos indígenas, africanos e seus descendentes submetidos às cruéis condições de exploração do sistema colonial escravista existente nas colônias de Portugal e Espanha aqui no continente americano.
Bem, na lógica defendida pelo “renomado” palestrante, os pobres não são pobres porque vivemos em um mundo marcado pela exploração do homem pelo homem, marcado por uma escandalosa desigualdade social, mas porque os pobres não correm atrás para melhorar de vida, não se motivam a subir de vida, a ascender socialmente. Em suma, as causas para a existência de um bilhão de pessoas que não tem o que comer (uma em cada sete pessoas passa fome no mundo) e para o fato de que a cada três segundos, alguém morre de fome (dados da FAO/ONU) não estariam articuladas com o injusto sistema de exploração capitalista (defendido pelo “renomado” palestrante no início de sua apresentação), mas com a falta de motivação destas pessoas famintas – elas passam fome porque querem, elas não tem dinheiro para comprar comida porque não querem trabalhar e por aí vai… Ou seja, o oprimido é o culpado pelos seus infortúnios. Seguindo a lógica, a culpa nunca é, por exemplo, do estuprador, mas do estuprado, que não estava motivado para evitar aquela situação.
Trazendo para o caso dos servidores públicos de Rio das Ostras: se eles estão passando por dificuldades financeiras e falta de condições de trabalho, o problema não é do Prefeito, nem dos vereadores, muito menos dos secretários e pessoal dos cargos comissionados, que estão ali apenas cumprindo ordens, ou na boca do povo da cidade, não passam de “paus mandados”. Portanto, a culpa é sua, servidor!!!!! Você que não tem motivação para administrar bem o seu salário e você que não tem “resiliência” para se ajustar ao ambiente de trabalho, improvisando soluções, etc., etc., etc… É uma injustiça os servidores ficarem reclamando aumento de salário. Pela lógica do “renomado” palestrante, qual o problema ter servidor público ganhando menos de um salário mínimo? Nada que uma boa motivação apenas não resolva. Nada como assistir uma palestra do “renomado” Daniel Godri para ser estimulado a deixar de reclamar por melhores salários e desenvolver a tal da “resiliência”.
Ora, “resiliência” não enche barriga de ninguém, nem paga as contas do servidor com água, luz, aluguel… E os mandatários da cidade sabem disso muito bem. Tanto que em dezembro de 2012, os vereadores se concederam um aumento de 220%. Tanto que o salário do Prefeito é de R$ 26.916,09 – aliás, o prefeito mais bem pago do Brasil. Para motivar o Prefeito e os vereadores, só dinheiro, o que confirma a existência de uma plutocracia em Rio das Ostras. E para os servidores “cachorros”, só resta abanar o rabo e latir seguindo os comandos do “Chefe Supremo” na esperança de que venha algum pedaço de osso.
Diante da política de pilhagem a que estão sendo submetidos os servidores públicos de Rio das Ostras, A LUTA É MAIS DO QUE JUSTA. Não se pode aceitar o argumento de equilíbrio das contas públicas para justificar a violação dos direitos, mais do que legítimos, dos servidores. Não se pode aceitar a regra dos donos do poder de “socialização dos prejuízos”, afetando seriamente os serviços públicos que assistem à população mais pobre (educação e saúde).
Conforme salienta o jornalista português e militante comunista Miguel Urbano Rodrigues:
A história ensina que na vida dos povos vítimas de uma opressão intolerável, as grandes lutas fermentam por tempo variável até que eles se levantam em explosões sociais vitoriosas. Então exercem o direito de resistência e à rebelião – direito que é antiquíssimo e consta do artigo 2º da Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão promulgada pela Revolução Francesa de 1789. É o direito à resistência contra a opressão econômica e social, direito que, após os horrores da Segunda Guerra Mundial, foi incluído na Declaração Universal dos Direitos do Homem (artigos 22 a 25).
A Constituição da Republica Federativa do Brasil menciona-o no artigo 9. Como consta abaixo:
Art. 9º É assegurado o direito de greve, competindo aos trabalhadores decidir sobre a oportunidade de exercê-lo e sobre os interesses que devam por meio dele defender.
Ora, o direito de greve é uma das formas de se exercer, ainda que parcialmente, o direito à resistência contra a opressão econômica. Opressão a que estão sendo submetidos os servidores públicos de Rio das Ostras.
NEM MAIS UM MINUTO, SERVIDOR!!! GREVE!!! GREVE!!! GREVE!!!
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Onde há luta tudo é conquistável e potencialmente perdível. Mas onde não há luta a derrota é certa.
Transformar a indignação numa atmosfera de combatividade crescente dos servidores públicos será um avanço. Será um golpe importante na engrenagem da máquina pública municipal, assentada no mandonismo, no clientelismo, no nepotismo e na repressão (de várias ordens). Será um passo importante para forçar a democratização das relações poder público X cidadãos no município de Rio das Ostras.
* Professor de História da Rede Municipal de Ensino Público de Rio das Ostras. Matrícula: 6273-1. Lotado na Escola Municipal Padre José Dilson Dórea, bairro Âncora, Rio das Ostras.